Desde criança, o jornalista Hugo Monte tem muita facilidade em decorar textos e, com a preparação na escola para a encenação da Paixão de Cristo, foi escalado para o papel de Jesus. Os ensaios correram normalmente e a apresentação foi um sucesso. Após o espetáculo, o pai de um dos colegas parabenizou Hugo pela apresentação, mas, em seguida, o atacou dizendo que “Jesus não era dessa cor”. Hugo sorriu sem graça, ainda sem entender o que aquela frase representava e somente anos depois, ele enfim compreendeu o que tinha acontecido naquele dia: “Entendi o que era racismo e fiz a ligação de que tinha sido alvo nesse episódio. Infelizmente, essa foi a primeira, mas não foi a única vez”.
Em 2016, já adulto, o impacto do racismo em sua vida ainda foi tão forte quanto na primeira experiência dolorosa dos tempos de escola. “Estava num atacado de Natal comprando material de expediente para o trabalho, quando vi duas senhoras conversando perto de mim. Deu para ouvir quando uma disse para a outra me pedir uma informação. A outra disse que achava que eu não trabalhava lá. Mas a primeira emendou: ‘olhe a cor dele. É óbvio que é empregado’. Ouvi tudo isso e só respondi que não trabalhava lá e saí”.

Hoje aos 38 anos, o jornalista Hugo Monte divide sua paixão na profissão entre o esporte e o jornalismo policial, pai de 3 filhos, ele teme que um dia eles também sofram com atos racistas: “Infelizmente, ainda temos que conviver com essa doença na sociedade, o racismo. Meu sonho era que tudo isso ficasse nos livros de história e nos episódios do passado. Como disse Martin Luther King: ‘I have a dream’ e esse sonho é que as pessoas sejam vistas como elas são”.
A preocupação do jornalista tem toda razão de ser e, além dos fatos, é comprovada em números. Dados de uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada no Brasil em 2019, apontam que entre as pessoas de 18 anos ou mais de idade que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa (%) 20,6% dos que se consideravam negros declararam ter sofrido algum tipo de violência. Entre os que se consideravam brancos, 16,6%.
No Rio Grande do Norte, segundo dados da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine), órgão da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed), de janeiro a abril de 2022, o estado registrou 14 crimes de racismo (Lei 7.716). Em 2023, no mesmo período foram 79 registros, um aumento de mais de 450%.
RACISMO NO ESPORTE
O debate sobre racismo é sempre atual e pertinente. No esporte, os casos também são recorrentes e o tema ganhou força no último domingo (21), com a repercussão internacional das agressões que o atacante brasileiro Vinicius Jr. sofreu em campo durante uma partida da liga espanhola (La Liga) entre Real Madrid e Valencia. E não foi a primeira vez, há pelo menos 9 ocasiões em que o brasileiro foi vítima de abusos que, até o momento, seguem sem qualquer tipo de penalidade.
Jornalista esportivo, Hugo Monte lembra que, “infelizmente, casos de racismo no esporte não são casos isolados, como muita gente (e até dirigentes) vem colocando.
Na mesma Espanha, Daniel Alves também foi alvo de racismo. Quando atuava pelo Barcelona, um torcedor adversário jogou uma banana em direção ao lateral em uma tentativa de ofensa. Em resposta, o jogador comeu a fruta. O ex-lateral Roberto Carlos também passou por situação parecida quando jogava na Rússia e uma banana foi jogada em direção ao gramado. Neymar também esteve envolvido em um episódio de insulto racista. Em 2020, acusou um outro jogador de chamá-lo de “macaco” durante uma partida do Campeonato Francês. Aqui no Brasil não é diferente. Jogador sendo hostilizado por torcedores, por adversário (seja ele compatriota ou estrangeiro), até por dirigente. Muda o nome, muda o esporte, muda o rosto. Mas o alvo sempre é o mesmo: Atletas negros”.
No Brasil, o crime de racismo tem punição prevista na Lei Geral dos Esportes, aprovada no dia 10 de maio e que prevê punições por condutas discriminatórias, racistas, homofóbicas, transfóbicas e xenófobas. Mas essa não foi uma votação unânime. Um grupo de senadores que reunia nomes como Rogério Marinho (PL), Damares Alves (Republicano/DF), Sergio Moro (União/PR), Flávio Bolsonaro (PL/RJ) e Hamilton Mourão (Republicanos/RS) considerava desnecessário o trecho da Lei Geral do Esporte que cujo texto trata de medidas necessárias para erradicar e reduzir as manifestações antiesportivas, entre elas, o racismo. Para tal, seria usado um termo genérico como “discriminação” (enquadrando também a violência, a corrupção, a xenofobia, a homofobia, o sexismo), o que implicaria na diminuição quanto à gravidade dos atos antiesportistas. A proposta foi derrotada por 43 x 23. Assim, a LGE prevê que, se penalizados, os torcedores podem ser impedidos de comparecer a eventos esportivos por até cinco anos.

