Por Elane Nascimento
Vencer o câncer de mama nem sempre significa o fim da jornada. Depois da cirurgia, da quimioterapia e da reconstrução da mama, muitas mulheres ainda convivem com uma marca que vai além da cicatriz física: a ausência da aréola. Foi justamente para ajudar essas pacientes a encerrarem esse ciclo que a enfermeira oncologista e esteticista Aline Costa criou um projeto de reconstrução gratuita de aréolas hiper-realistas.
A iniciativa nasceu de uma experiência pessoal. Quando tinha apenas 12 anos, Aline viu a mãe, Maria Ludeni, receber o diagnóstico de câncer de mama. Durante mais de uma década, acompanhou de perto os tratamentos, as cirurgias e as mudanças provocadas pela doença.
“Eu ainda era uma menina, mas acompanhei de perto uma doença que mudou a nossa família. Vi minha mãe atravessar tratamentos, cirurgias, medos e recomeços. Durante muitos anos também vi as marcas que ficaram no corpo dela”, relembrou.
Segundo Aline, mesmo após vencer o câncer, a mãe nunca conseguiu enxergar a própria mama como completamente reconstruída.
“Ela viveu 12 anos depois do diagnóstico. Durante esse tempo, algo no olhar dela diante do espelho chamava minha atenção. A mama remetia a uma mama adoecida, mutilada, porque não existia mais o detalhe da aréola. Talvez para algumas pessoas isso parecesse apenas um detalhe.
Mas, para ela, não era”, contou.

Saudade que se transformou em propósito
A mãe de Aline faleceu 12 anos após o diagnóstico. Com o tempo, a dor deu lugar a um propósito.
A enfermeira especializou-se em oncologia e, mais tarde, encontrou na dermopigmentação paramédica uma forma de oferecer a outras mulheres aquilo que sua mãe nunca teve.
“Comecei a estudar reconstrução areolar, micropigmentação paramédica, realismo tridimensional, colorimetria e anatomia com um único objetivo: fazer por outras mulheres aquilo que eu não pude fazer por Mainha. Devolver a feminilidade perdida”, afirmou.
“Cada aréola reconstruída carrega uma história. Quero que esse projeto seja sobre mulheres que passaram por uma doença, por uma cirurgia, por uma transformação corporal e que agora possam olhar novamente para o próprio corpo e enxergar não apenas a cicatriz do que viveram, mas também a beleza do que reconstruíram”, disse.
Embora a procura aumente durante a campanha Outubro Rosa, Aline faz questão de manter o projeto ativo o ano inteiro.
Ela desenvolve o trabalho com recursos próprios e reserva espaço permanente na agenda para atender mulheres mastectomizadas.
“Elas têm prioridade na minha agenda e não existe limite de vagas ou um mês específico. Comigo, o ano todo é cor-de-rosa”, explicou.
Antes da micropigmentação, a profissional realiza um estudo individual para definir posição, formato e tonalidade da aréola.
O procedimento utiliza pigmentos específicos, máquina de tatuagem e técnicas de desenho tridimensional, que reproduzem efeitos de luz e sombra para criar uma aparência natural.
“Como normalmente é um tecido mais fragilizado, divido o procedimento em duas ou três sessões, com intervalo de 30 dias entre elas”, explicou.
Por segurança, nem todas as pacientes podem realizar o procedimento imediatamente.
“Elas precisam ter o aval positivo dos oncologistas. Por mais que seja um procedimento minimamente invasivo, pode gerar algum risco. Tudo é feito com muita cautela. O fato de eu ser enfermeira oncologista me dá respaldo para orientar cada caso”, esclareceu.
“A sensação de cura vem depois da reconstrução”
Ao longo dos atendimentos, Aline percebeu que a reconstrução da aréola representa, para muitas mulheres, o verdadeiro encerramento do tratamento.
“Eu sinto que a real sensação de cura vem após a reconstrução. Antes elas veem uma mama mutilada, sem o detalhe da aréola. Isso remete a uma mama doente. Quando eu reconstruo, sinto que elas colocam, de fato, um ponto final no pesadelo”, afirmou.
Ela conta que já ouviu inúmeras histórias de superação e também relatos de abandono após o câncer de mama. Entre todas, uma permanece especialmente viva na memória.
Uma filha procurou Aline para presentear a mãe com o procedimento, sem que ela soubesse.
Depois da reconstrução, as duas decidiram fazer uma surpresa ao marido da paciente, que estava viajando.
“No dia seguinte, a filha me ligou para contar que, assim que chegaram em casa, a mãe abriu a porta, tirou a blusa e o sutiã e fez uma chamada de vídeo para o marido mostrar o resultado. Os três choraram juntos”, lembrou.
Para Aline, aquele momento mostrou que o procedimento vai além da reconstrução física.
“Acredito que esse procedimento não muda apenas a vida de uma mulher. Ele consegue melhorar tudo o que está ao redor dela. Uma mulher com a autoestima elevada é capaz de muitas coisas”, destacou.

Legado também inspira projeto de lei
O legado de Maria Ludeni também inspira uma proposta legislativa. Um projeto de lei protocolado no Senado Federal leva seu nome e busca ampliar os direitos das mulheres mastectomizadas.
A proposta prevê que o Sistema Único de Saúde (SUS) passe a garantir o acesso à reconstrução areolar para pacientes submetidas à mastectomia.
Para Aline, a iniciativa representa uma forma de manter viva a história da mãe e permitir que outras mulheres tenham oportunidades que ela não teve.
“Minha mãe não teve essa oportunidade. Mas a história dela pode ajudar outras mulheres a terem. Esse projeto é a forma que encontrei de transformar saudade em propósito. E propósito em cuidado”, concluiu.

