Por Carol Ribeiro
A presença feminina na política ainda é minoritária no Brasil, mas, para a vice-prefeita de Natal, Joana Guerra (Republicanos), ocupar esses espaços é parte essencial do processo de transformação social. Em entrevista ao Diário do RN, ela fala sobre sua trajetória na gestão pública, os desafios enfrentados por mulheres em ambientes políticos majoritariamente masculinos e a importância de ampliar a participação feminina nas decisões que impactam a vida da população.
Ao refletir sobre o papel das mulheres na política, a vice-prefeita reconhece que ainda existe uma predominância masculina nos espaços de poder e admite que, muitas vezes, as mulheres precisam demonstrar mais competência para obter o mesmo reconhecimento. Para ela, a melhor forma de enfrentar esse cenário é com trabalho, preparo e resultados, ajudando a quebrar preconceitos e consolidar a presença feminina na política.
Joana também destaca que Natal tem buscado avançar na participação das mulheres na gestão pública. De acordo com ela, atualmente cerca de 45% do primeiro escalão da administração municipal é composto por mulheres, o que considera um sinal de compromisso com maior representatividade.
Além da atuação na gestão municipal, Joana Guerra também tem papel na organização partidária. Ela preside o Republicanos em Natal e atua como secretária estadual de Mulheres da legenda no Rio Grande do Norte, defendendo que os partidos avancem além das cotas eleitorais e invistam na formação e no fortalecimento de lideranças femininas.
A seguir, a entrevista concedida ao Diário do RN.
Diário do RN – Em que momento da sua vida você percebeu que a política seria um caminho possível?
Joanna Guerra – Minha trajetória começou muito antes de disputar um cargo eletivo. Sou formada em Gestão de Políticas Públicas pela UFRN, com especialização em Gestão Pública pelo IFRN e mestrado em Estudos Urbanos e Regionais também pela UFRN, e durante muitos anos atuei na área de planejamento e gestão pública. Foi nesse contato direto com a construção de políticas públicas, participando da elaboração de projetos e acompanhando decisões que impactam a vida das pessoas, que percebi que a política também poderia ser um caminho natural para ampliar essa contribuição e ajudar a transformar realidades.
DRN – Ser mulher influenciou de alguma forma sua decisão de entrar na política? Como?
Joanna Guerra – Ser mulher certamente influencia nossa forma de olhar para a política. Ao longo da minha trajetória, sempre tive consciência de que ainda somos minoria nos espaços de poder. E isso não me afastou da política, pelo contrário, reforçou a convicção de que precisamos ocupar esses espaços, levar nossa perspectiva e contribuir para decisões mais justas, sensíveis e representativas da sociedade.
DRN – Como é ocupar hoje o cargo de vice-prefeita em um ambiente político ainda majoritariamente masculino?
Joanna Guerra – É uma grande responsabilidade, mas também uma oportunidade de contribuir para ampliar a presença feminina nos espaços de decisão. A política brasileira ainda tem predominância masculina, mas em Natal temos buscado dar um exemplo diferente. Hoje, a gestão municipal conta com um percentual expressivo de mulheres no primeiro escalão, chegando a cerca de 45% do secretariado, o que demonstra um compromisso real com a participação feminina na condução das políticas públicas da cidade.
Além disso, o Rio Grande do Norte tem uma história muito forte de pioneirismo feminino na política, o que aumenta ainda mais o senso de responsabilidade de quem ocupa um cargo público hoje. Foi aqui que tivemos Alzira Soriano, a primeira mulher eleita prefeita na América Latina, ainda em 1928. Também tivemos lideranças marcantes como Wilma de Faria, primeira mulher prefeita de Natal e depois governadora do estado, além de outras mulheres que abriram caminhos na política e na gestão pública.
Estar hoje como vice-prefeita de Natal significa dar continuidade a esse legado e, ao mesmo tempo, trabalhar para que cada vez mais mulheres possam participar da política não como exceção, mas como parte natural da construção das decisões que impactam a sociedade.
DRN – Você sente que precisa provar mais competência do que colegas homens para ocupar o mesmo espaço?
Joanna Guerra – Infelizmente, em muitos momentos as mulheres ainda precisam demonstrar mais para ter o mesmo reconhecimento. Mas eu acredito que o melhor caminho é responder com trabalho, seriedade e resultados. Quando mostramos capacidade, preparo e dedicação, ajudamos a desconstruir preconceitos e a consolidar o espaço das mulheres na política.
DRN – Houve algum episódio marcante em que você sentiu claramente o peso do machismo na política?
Joanna Guerra – A política, como outros ambientes de poder, ainda carrega práticas e visões antigas. Em alguns momentos percebemos questionamentos ou julgamentos que muitas vezes não seriam feitos da mesma forma a um homem. Essas situações existem, mas procuro encará-las como parte de um processo maior de transformação, em que cada avanço das mulheres ajuda a mudar essa cultura.
DRN – Quais pautas relacionadas às mulheres ainda precisam avançar mais no poder público municipal?
Joanna Guerra – O enfrentamento à violência contra a mulher continua sendo uma das maiores prioridades. Em Natal, temos fortalecido a rede de proteção com o trabalho da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (Semul), que atua no acolhimento, orientação e desenvolvimento de ações de prevenção e apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade.
Outro instrumento muito importante é a atuação da Patrulha Maria da Penha, que tem reforçado o acompanhamento e a proteção de mulheres com medidas protetivas, garantindo mais segurança e presença do poder público na defesa de suas vidas.
Também avançamos em políticas que impactam diretamente o cotidiano das mulheres. Um exemplo importante foi zerar a fila por vagas em creches em Natal, uma conquista que representa mais dignidade e oportunidade para muitas mães que precisam trabalhar, estudar ou empreender com a tranquilidade de ter seus filhos em um espaço seguro e de qualidade.
Mas ainda precisamos seguir avançando em outras frentes igualmente estratégicas, como a autonomia econômica das mulheres, ampliando oportunidades de qualificação profissional, geração de renda e apoio ao empreendedorismo feminino.
DRN – Os partidos políticos realmente incentivam candidaturas femininas ou ainda tratam as mulheres como cota eleitoral?
Joanna Guerra – Houve avanços importantes na legislação e dentro dos partidos, mas ainda precisamos evoluir muito. Não basta apenas cumprir cotas formais! É fundamental investir na formação, no apoio e na visibilidade das mulheres na política.
Falo também a partir da experiência prática. Hoje tenho a responsabilidade de presidir o Republicanos em Natal e de atuar como secretária estadual de Mulheres do partido no Rio Grande do Norte. Há um movimento a nível nacional neste Partido e temos trabalhado para fortalecer cada vez mais a participação feminina, estimulando a formação política, o surgimento de novas lideranças e a construção de candidaturas competitivas.
No Republicanos, o movimento feminino tem ganhado força e organização, justamente com o objetivo de garantir que as mulheres não estejam na política apenas para cumprir uma exigência legal, mas para ocupar espaços de decisão, influenciar agendas e contribuir efetivamente para o desenvolvimento das cidades e da sociedade. Quando os partidos realmente acreditam no protagonismo feminino, o resultado é mais diversidade, mais representatividade e uma democracia mais forte. E aqui em Natal e no Rio Grande do Norte, dentro das minhas atribuições partidárias, busco fortalecer as mulheres republicanas e incentivar também uma participação feminina não só em maior número, mas projetos cada vez mais fortes de ocupação de mulheres na política Norte-Rio-Grandense.

