O Paquistão e o Afeganistão trocaram ataques na madrugada desta sexta-feira (27), no horário de Brasília, após Islamabade ter declarado uma “guerra aberta” ao país vizinho.
O Exército paquistanês bombardeou diversas cidades afegãs, incluindo a capital Cabul, e compartilhou vídeo do que afirma ser ataques na cidade.
Autoridades paquistanesas disseram à agências de notícias Reuters que os ataques envolveram mísseis disparados por via aérea contra escritórios e postos militares do Talibã em Cabul, Kandahar e também na província de Paktia. Testemunhas da AFP confirmaram explosões e viram caças sobrevoando as cidades.
Kandahar, uma grande cidade localizada no sul do Afeganistão, é considerada o quartel-general do Talibã e é onde fica o líder espiritual supremo do grupo, Haibatullah Akhundzada.
O Talibã por sua vez, anunciou nesta sexta-feira que conduziu “com sucesso” bombardeios com drones contra instalações militares em Islamabad, em Nowshera, Jamrud e Abbottabad, no Paquistão, no que chamou de “ataques retaliatórios”. O ministro da Informação paquistanês, Attaullah Tarar, por sua vez, afirmou o país abateu drones rivais nas cidades de Nowshera, Abbottabad e Swabi, e que “não houve vítimas”.
O governo do Paquistão declarou guerra contra o Afeganistão na quinta-feira após ter dito que “a paciência chegou ao limite” com o país vizinho. Os dois países haviam firmado um acordo de cessar-fogo mediado pelo Catar em outubro. Nesta sexta-feira, Islamabade afirmou estar pronto para “esmagar” o Talibã, que controla o Afeganistão.
Os ataques aéreos paquistaneses marcam a primeira vez que Islamabad mira diretamente instalações do Talibã, em vez de alvejar combatentes acusados de ser apoiados pelo grupo, o que representa uma nova ruptura nas relações entre os vizinhos islâmicos, que antes eram aliados próximos.
O início do conflito ocorre após meses de tensões entre os países vizinhos e confrontos na fronteira. Um vídeo de troca de tiros em uma região fronteiriça chamou atenção na quinta-feira, e os embates no local continuaram ao longo da madrugada nesta sexta-feira. Soldados de ambos os países utilizam armas e artilharia para alvejar o outro lado.
O Paquistão, uma potência nuclear, acusa as autoridades talibãs de oferecerem cobertura a militantes armados que lançam ataques contra seu território, o que o governo do Afeganistão nega.
Confronto na fronteira
Na noite de quinta‑feira, as forças afegãs lançaram uma ofensiva na fronteira contra as tropas paquistanesas em resposta, segundo Cabul, aos bombardeios paquistaneses do fim de semana passado.
“Alguns deixaram seus documentos (…) Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora”, contou uma testemunha à agência de notícias AFP.
O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirmou que os ataques de sexta‑feira e outros recentes na província de Paktia são uma “resposta adequada” às ações do país vizinho.
O governo do Afeganistão confirmou os ataques aéreos. Seu porta‑voz, Zabihullah Mujahid, que horas antes havia anunciado a retomada de “operações ofensivas em larga escala” na fronteira, afirmou que não houve vítimas.
Em pleno Ramadã, as ruas de Cabul estavam tranquilas depois do amanhecer, sem uma grande presença das forças de segurança, nem postos de controle, segundo os repórteres da AFP.
Preocupados, Irã e China se apresentaram como possíveis mediadores do conflito.
O governo do Irã, que compartilha uma fronteira ao leste com Afeganistão e Paquistão – e está, por sua vez, envolvido em negociações para evitar um conflito com os Estados Unidos -, se ofereceu para “facilitar o diálogo”.
As autoridades chinesas pediram às partes que mantenham a calma e atuem com moderação, para “alcançar um cessar‑fogo o mais rápido possível e evitar mais derramamento de sangue”.
Relações muito tensas
Desde quinta-feira, os dois países apresentam versões contraditórias sobre a situação.
O porta-voz afegão Mujahid afirmou que “dezenas de soldados paquistaneses morreram”, “vários também ficaram feridos e outros foram tomados como prisioneiros”, e mais de 15 postos avançados do Paquistão caíram.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, desmentiu a versão afegã: “Nenhum posto paquistanês foi tomado ou danificado”, enquanto os paquistaneses infligiram “graves perdas” aos afegãos.
O bombardeio das forças afegãs ocorreu após vários ataques aéreos paquistaneses no fim de semana passado nas províncias de Nangarhar e Paktia, após “recentes atentados suicidas” no Paquistão.
As relações entre os dois vizinhos pioraram consideravelmente nos últimos meses. A fronteira terrestre permanece em grande parte fechada, exceto para os afegãos que retornam ao seu país, desde os combates de outubro, que deixaram mais de 70 mortos dos dois lados.
Após um cessar-fogo inicial negociado pelo Catar e pela Turquia, várias rodadas de conversações foram organizadas, mas um acordo duradouro não foi alcançado.
O EI Khorasan, considerado um dos braços mais ativos da organização Estado Islâmico, opera nos dois países.
Quando retornou ao poder no Afeganistão, o movimento talibã impôs uma interpretação rigorosa da lei islâmica, o que priva as mulheres e as meninas do direito à educação e ao mercado de trabalho.
*Com informações de g1

