Nietzsche jamais conheceu as redes sociais, mas parece tê-las descrito com precisão. O filósofo identificou no ressentimento o motor psicológico daqueles que, incapazes de criar, afirmar ou realizar algo por si mesmos, passam a negar o valor do que é feito pelos outros. O ressentido, ou, em termos mais diretos, o frustrado, não constrói. Ele reage. Não celebra. Ele desqualifica.
Os haters das redes sociais são a expressão contemporânea desse tipo humano. Raramente aparecem quando há esforço silencioso, estudo prolongado ou sacrifício cotidiano. Surgem quase sempre no momento da conquista alheia, como se o sucesso do outro funcionasse como um espelho incômodo de suas próprias insuficiências.
Um exemplo recente ajuda a compreender esse mecanismo. Uma delegada de polícia, mulher, formada em São Paulo, tornou-se alvo de ataques machistas por parte de um comentarista que, sem qualquer lastro técnico, intelectual ou moral, decidiu reduzir sua trajetória a estereótipos e preconceitos. O incômodo não estava nos fatos, mas no símbolo representado por uma mulher que venceu, ocupou espaço e alcançou mérito em um ambiente historicamente hostil. Para o ressentido, isso é intolerável. Quando não se consegue subir, tenta-se diminuir a altura da conquista alheia.
O mesmo padrão aparece nas reações de certos críticos às recentes premiações internacionais concedidas a artistas brasileiros como Fernanda Torres e Wagner Moura. Em vez de reconhecer talento, consistência artística e reconhecimento externo, surgem tentativas de esvaziar o mérito.
Diz-se que não é tudo isso, que é política, que é sorte, que os critérios são fracos. Trata-se de crítica sem obra, sem currículo e sem risco. Uma crítica que não cria, apenas corrói.
Nietzsche já havia observado que o ressentido precisa transformar o sucesso alheio em algo moralmente suspeito para preservar a própria autoestima. Se o outro venceu, o sistema estaria errado. Se foi premiado, os critérios seriam duvidosos. Se se destacou, haveria interesses ocultos.
Dessa forma, evita-se o confronto mais doloroso, que é olhar para si mesmo e reconhecer a própria estagnação.
As redes sociais potencializaram esse fenômeno ao oferecer palco e visibilidade a quem nunca produziu nada relevante. O ataque vira identidade e o ódio se transforma em moeda simbólica, alimentada por curtidas, compartilhamentos e algoritmos.
Reconhecer a vitória dos outros exige maturidade, segurança e força interior, virtudes escassas em tempos de comparação permanente. Por isso, o ressentido prefere negar o mérito alheio a admitir que o sucesso costuma ser resultado de talento, disciplina e coragem.
No fim, a lição nietzschiana permanece atual. Quem cria não odeia. Quem afirma não precisa destruir. Quem realiza não perde tempo tentando diminuir a vitória dos outros. O hater, ao atacar, revela menos sobre quem é atacado e muito mais sobre o próprio fracasso não elaborado.
