A política, quando observada sem o véu das ilusões, costuma confirmar mais Maquiavel do que Aristóteles, e, no caso recente de Allyson Bezerra, a lição parece seguir à risca o manual do florentino. Ao tomar o controle do Republicanos no Rio Grande do Norte, desalojando a influência de Álvaro Dias, Allyson reorganiza forças e revela, sem rodeios, o tipo de cálculo político que privilegia a conquista do poder acima de qualquer constrangimento moral.
Não há ingenuidade aqui. Há método.
Maquiavel, em O Príncipe, advertia que o governante eficaz não deve se prender à virtude tradicional, mas à virtù, isto é, à capacidade de agir conforme as circunstâncias, ainda que isso implique ações e medidas incômodas. Sob essa lente, o movimento de Allyson é exemplar: ao negociar diretamente com Marcos Pereira, garantindo o controle partidário no estado e estabelecendo uma gestão compartilhada com Abraão Lincoln, ele demonstra compreender que, na política real, partidos são instrumentos, não convicções. O problema não está na estratégia.
Maquiavel a aplaudiria. O problema está no custo, pois ao se aproximar de figuras do Republicanos associadas a denúncias de irregularidades envolvendo o INSS, o candidato do União Brasil ao governo do Rio Grande do Norte atravessa uma fronteira que não é apenas política, mas moral. E é aqui que abandono o pragmatismo renascentista e recorro à filosofia clássica.
Aristóteles via a política, antes de tudo, como uma extensão da ética. O governante deve buscar o bem comum, orientado pela virtude. Não se trata de ingenuidade, mas de finalidade, afinal a pólis existe para promover a vida boa e não apenas a vida possível. Quando alianças são firmadas com agentes cuja reputação está sob suspeita, a pergunta aristotélica é inevitável: que tipo de bem comum pode emergir de uma base construída sobre concessões desse tipo?
A resposta, quase sempre, é desconfortável.
Kant elevaria o tom da crítica. Para ele, a moralidade não admite atalhos. O imperativo categórico exige que as ações possam ser universalizadas e que os indivíduos jamais sejam tratados apenas como meios, mas como fins em si mesmos. Ora, ao instrumentalizar alianças com figuras politicamente úteis, ainda que eticamente problemáticas, Allyson parece operar exatamente no sentido oposto, transformando a política em um jogo de meios, na qual o fim – a conquista do governo em 2026 – justifica a elasticidade dos princípios.
A lente mais incômoda para o caso talvez seja a de Anthony Downs. Em sua teoria econômica da democracia, Downs descreve partidos e candidatos como agentes racionais que buscam maximizar votos. Ideologia, nesse modelo, não é um compromisso moral profundo, mas uma ferramenta adaptável. O eleitor é um consumidor; o político, um ofertante de promessas. Sob essa ótica, o movimento de Allyson é quase didático. Ao assumir o controle do Republicanos no estado, reposicionando o partido e ampliando sua base com nomes como Marcos Medeiros, agora alçado à prefeitura de Mossoró, ele está, na prática, otimizando sua “oferta eleitoral”. Amplia capilaridade, fortalece palanques e reduz a concorrência interna na direita potiguar. Trata-se de uma operação de mercado político. E mercados, como se sabe, não são ambientes morais, são ambientes eficientes.
O ponto crítico, entretanto, é que a política não pode ser reduzida a mercado sem consequências.
Quando tudo se torna cálculo (alianças, discursos, trajetórias), o risco é a erosão completa da confiança pública e o eleitor, já cético, passa a enxergar na movimentação não uma estratégia legítima e sim mais um capítulo da velha história brasileira, a saber, a troca de princípios por conveniência.
Ao tentar se consolidar como alternativa e liderança emergente, Allyson Bezerra recorre exatamente aos mecanismos que sustentam aquilo que muitos de seus apoiadores dizem combater: a política como rearranjo de grupos, a captura de partidos como ativos eleitorais, a indiferença calculada diante de questionamentos éticos. É irônico. Maquiavel explicaria. Downs compreenderia. Aristóteles desaprovaria. Kant condenaria. E o eleitor, entre uma teoria/filosofia e outra, segue tentando decidir se está diante de um estrategista necessário ou de mais um capítulo previsível da política que nunca muda, apenas se reorganiza.
