O Brasil vive prisioneiro de uma polarização que ultrapassa a política e invade o cotidiano. De um lado, o lulismo; de outro, o bolsonarismo. Juntos, os dois polos concentram entre 50% e 60% do eleitorado e moldam a vida pública em torno de uma lógica binária que pouco deixa espaço para alternativas. São tribos organizadas, que se reconhecem menos pelo que propõem e mais pelo ódio que nutrem contra o adversário.
O lulismo nasceu da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva e da experiência do Partido dos Trabalhadores no poder. Sua força está na promessa de inclusão social e no acesso ao consumo que marcou os anos 2000. Mas o projeto, ao longo do tempo, se confundiu com escândalos como o mensalão e a Petrolão, entre outro. Além da dependência de alianças pragmáticas com o Centrão.
O carisma de Lula garantiu a sobrevivência da marca, mas a identificação com corrupção e fisiologismo corroeu a imagem do PT entre parcelas expressivas da população.
O bolsonarismo surgiu como reação a esse desgaste. Jair Bolsonaro, deputado obscuro por quase três décadas, aproveitou a onda antipetista e a crise econômica para se apresentar como candidato antissistema. Chegou ao governo assim e seu governo misturou liberalismo econômico com populismo de ocasião, além de um discurso conservador mobilizado em torno da religião, da moralidade e do medo do comunismo. Sua força não esteve em políticas de Estado duradouras, mas na capacidade de criar identidade a partir da negação: contra a esquerda, contra o STF, contra a imprensa…
As duas facções operam como torcidas organizadas. O fanático por futebol pode xingar jogadores e técnicos, mas não tolera ataques de rivais ao seu clube. O fanático político vai além: não admite críticas ao seu líder, relativiza erros, passa pano para abusos e fecha os olhos diante de escândalos. Para o lulista, Lula é o único capaz de governar em nome dos pobres; para o bolsonarista, Bolsonaro é o último bastião contra a corrupção e a degeneração moral.
Nesse ambiente, instituições tornam-se alvo e instrumento da disputa. O Supremo Tribunal Federal virou protagonista ao anular a prisão de Lula e ao enfrentar o bolsonarismo. O Congresso Nacional segue como espaço de barganha, sustentando governos à base de emendas milionárias.
As Forças Armadas, discretas desde a redemocratização, voltaram à cena com Bolsonaro, reacendendo temores de tutelas militares. A política se converte em plebiscito permanente, em que vencer o outro lado importa mais do que governar o país. O resultado é um Brasil exausto, refém de ativismo político sem fim. O debate público reduz-se a slogans e fake news que circulam em redes sociais. Ideias são julgadas não por mérito, mas por origem: se vêm do outro campo, são descartadas de antemão. Isso bloqueia consensos em torno de temas urgentes e expõe traços doentios.
Embora uma guerra civil seja improvável, a retórica agressiva, a desconfiança nas instituições e o enraizamento do ódio social corroem a democracia por dentro. O país segue dividido entre passeateiros e avenideiros, entre companheiros e ordem-unideiros, entre fiéis de Lula e devotos de Bolsonaro.
Superar esse ciclo exige reconhecer que a política não pode ser um campo de batalha sem trégua.
Democracias maduras não sobrevivem apenas de vitórias momentâneas de um lado sobre o outro, mas de capacidade de compromisso e negociação. Enquanto lulismo e bolsonarismo continuarem a definir-se apenas pela negação do adversário, o Brasil permanecerá preso a um duelo estéril, em que todos saem derrotados.
