Antes de qualquer juízo moral – que a política dispensa com a maior naturalidade – convém rezar pela cartilha clássica da teoria das elites: não existe política sem oligarquia. Vilfredo Pareto disse isso sem pedir licença à esperança democrática; Gaetano Mosca confirmou com método; Robert Michels selou com a famosa “lei de ferro”. O resto é retórica para plateia ou consolo para militância. Quem ignora esse ponto de partida não analisa política, escreve panfleto.
O Rio Grande do Norte, nesse aspecto, é um laboratório exemplar. Pequeno, previsível, lento como um elefante cansado, mas de memória longa. As oligarquias locais nunca desapareceram; apenas trocaram de roupa, de discurso e, às vezes, de endereço partidário. Quando parecem derrotadas, estão apenas em repouso estratégico. Quando anunciam o fim das oligarquias, é porque uma nova composição já está em gestação.
Hoje, a cena é curiosa e instrutiva. José Agripino Maia e Walter Alves, últimos remanescentes operacionais de dois grandes troncos familiares do poder potiguar, surgem abraçados ao pré-candidato a governador Allyson Bezerra. O gesto não é afetivo, é estrutural. Trata-se do encontro entre a elite experiente, que conhece os atalhos do Estado, e a elite emergente, que domina o vocabulário do tempo e a estética da novidade. Pareto chamaria isso de circulação das elites; Michels diria que é autopreservação do sistema.
Allyson, como manda o figurino de todo político em ascensão, já ensaiou discursos contra as oligarquias. É quase um rito de passagem. Nenhum pretendente ao poder pode admitir, em público, que deseja ingressar numa engrenagem oligárquica; precisa, antes, denunciá-la. O problema não é a crítica, legítima, até, mas o desfecho previsível. A história recente do estado oferece exemplos didáticos.
O PT potiguar, que durante anos fez da denúncia às oligarquias seu capital simbólico, acabou abraçado a Wilma de Faria, Garibaldi Alves, Henrique Alves, Robinson Faria, Sandra e Laíre Rosado. Não por incoerência moral, mas por necessidade política. Mosca ensinou que toda elite governante precisa se ampliar para sobreviver ou apodrece em círculo fechado. O PT aprendeu isso na prática, não nos livros.
O discurso antioligárquico, portanto, raramente é um projeto de ruptura. É, quase sempre, um convite à renegociação, pois sinaliza à elite estabelecida que há um novo ator forte na praça e que é melhor acomodá-lo a enfrentá-lo. Allyson Bezerra, ao atrair Agripino e Walter, não está rompendo com o sistema, mas a ele sendo incorporado, com vantagens mútuas.
José Agripino traz o conhecimento acumulado de décadas, o trânsito nacional, a memória das derrotas e vitórias. Walter Alves carrega o sobrenome que ainda organiza apoios silenciosos, especialmente no interior. Allyson oferece juventude, popularidade digital, uma imagem de gestor e a promessa de futuro. É um casamento típico das elites: não se funda no amor e, sim, na conveniência.
A teoria das elites ajuda a entender por que essas alianças causam escândalo apenas entre os ingênuos. Michels alertava que mesmo os movimentos que nascem para destruir as oligarquias acabam criando as suas. A diferença está apenas na narrativa justificadora. Uns chamam de “frente ampla”; outros, de “governabilidade”. O conteúdo é o mesmo.
No Rio Grande do Norte, o problema não é a existência das oligarquias, um dado estrutural. O problema é sua baixa capacidade de renovação qualitativa. Circulam os nomes, trocam-se os discursos, mas o estado continua lento, desigual e administrativamente frágil. A elite se reinventa para continuar mandando, não necessariamente para governar melhor.
Allyson Bezerra talvez acredite – e não seria o primeiro – que pode usar a velha elite sem ser usado por ela. É a ilusão clássica do recém-chegado. A história recomenda cautela. As oligarquias potiguares sobrevivem justamente porque sabem esperar, recuar, ceder espaços e, quando necessário, engolir seus críticos. Ao final, meus caros leitores, o sistema sempre cobra a conta.
A política do Rio Grande do Norte, vista à luz da teoria das elites, é uma engrenagem funcional.
Quem entra precisa aceitar suas regras, mesmo quando promete mudá-las. O resto é discurso para as redes sociais e para as bolhas. Nos bastidores, onde o poder real ainda decide, o velho elefante segue andando, lento, mas firme, carregando sobre o lombo mais uma geração de esperanças recicladas.
