Alguns laudos da Política Técnico-Científica de São Paulo confirmaram que a policial militar Gisele Alves não estava grávida e também não foi dopada, mas que havia mais manchas de sangue da soldado espalhadas por outros cômodos do apartamento onde ela morreu.
A Polícia Civil segue investigando se Gisele cometeu suicídio ou foi vítima de feminicídio no último dia 18 de fevereiro. A agente da Polícia Militar (PM) foi encontrada baleada com um tiro na cabeça no imóvel onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, no Brás, na região central.
Apesar da conclusão do laudo toxicológico, que não indicou o consumo de drogas ou bebidas por Gisele, e da liberação de outros exames _que somam cerca de 70 páginas_, a delegacia aguarda ainda mais resultados complementares do Instituto Médico Legal (IML) e do Instituto de Criminalística (IC) para concluir o inquérito. Eles devem esclarecer a dinâmica do disparo ocorrido há quase um mês.
Nesta terça-feira (17) é aguarda uma reunião no 8º Distrito Policial (DP), Brás, entre a Polícia Civil, Corregedoria da PM e Ministério Público (MP) para tratar do andamento das investigações.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio e, diante de contradições e novos elementos, passou a ser tratado como morte suspeita. A investigação trabalha com duas hipóteses: a de que Gisele tenha tirado a própria vida ou a de que tenha sido assassinada. A perícia analisa exames que podem indicar se houve ação de alguém ou disparo autoprovocado.
Segundo o relato do coronel, que sustenta a versão do suicídio, o tiro teria ocorrido após uma discussão e no momento em que ele estava no banho. Geraldo disse ter ouvido um barulho, saído do banheiro e encontrado Gisele ferida na cabeça, com uma arma dele na mão dela. Em seguida, acionou o socorro. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32.
Reconstituição e depoimentos
Depois da morte de Gisele, o coronel afastou‑se do trabalho e participou da reconstituição realizada por peritos do Instituto de Criminalística (IC) em 23 de fevereiro, no apartamento do casal _o laudo da reprodução simulada ainda não ficou pronto.
A defesa de Geraldo requereu novo depoimento no 8º Distrito Policial (DP), no Brás, após a juntada dos laudos pendentes. Seu advogado indicou um médico do esporte que atendeu o casal dias antes da morte para relatar a rotina e planos do casal.
Na última sexta‑feira (13), o ex‑marido de Gisele prestou depoimento no 8º DP. Segundo o relato apresentado pelos representantes da família, ele descreveu a soldado como alguém que não manifestava tendências suicidas. E informou que a filha que teve com Gisele, que morava com a mãe, deverá ficar temporariamente sob sua guarda e dos avós maternos.
Após questionamentos da família e surgimento de novos elementos, a Polícia Civil reclassificou o caso como morte suspeita, e a Justiça remeteu a investigação à Vara do Júri, por vislumbrar indícios de crime doloso contra a vida — categoria que inclui feminicídio.
Os familiares apresentaram relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica, com Geraldo a ameaçando e perseguindo, a proibindo de ter liberdade, inclusive para ir sozinha à academia.
Laudos já concluídos reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial de suicídio.
O necroscópico apontou disparo encostado no lado direito da cabeça e lesões no rosto e no pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unhas (achados confirmados também após exumação). E que Gisele chegou a desmaiar antes do tiro que atingiu sua cabeça.
O residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo. E o laudo de trajetória indica tiro de baixo para cima. Profissionais que atenderam a ocorrência estranharam ainda a pistola permanecer na mão da vítima — situação incomum em casos de suicídio com arma de fogo.

Outros pontos sob análise são inconsistências no relato temporal do coronel e condutas adotadas no local logo após o disparo. Uma vizinha teria ouvido o barulho do tiro quase 30 minutos antes de Geraldo telefonar para a PM pedindo ajuda para socorrer a esposa.
Registros do condomínio mostram a chegada de um desembargador após ligação do oficial; em seguida, o coronel tomou banho.
Para o advogado que defende os interesses da família de Gisele, o coronel matou a soldado.
Por decisão judicial, o corpo foi exumado para novos exames.
Entre os laudos pendentes no inquérito, seguem o laudo da reconstituição, que mostrará o local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo, e a versão das testemunhas para o que pode ter ocorrido.
Os peritos encontraram manchas de sangue no banheiro e outros cômodos, o que causa estranheza porque Gisele foi encontrada em outro cômodo. A perícia usou o luminol _equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz _ para achar as gotas de sangue.
Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após denúncias de ameaças, perseguição e instabilidade emocional na relação, atribuídas ao tenente‑coronel. As investigações prosseguem, e novas diligências dependem da conclusão dos laudos pendentes.
*Com informações de g1

