Há políticos que entram na prisão como quem atravessa um corredor da história. Outros entram como quem procura a saída de emergência. A comparação entre Lula e os petistas presos na Lava Jato e Bolsonaro com seus auxiliares após o 8 de janeiro diz menos sobre processos jurídicos e muito mais sobre caráter político, disciplina e coragem diante do fim do poder.
Quando Lula foi preso em abril de 2018, não houve fuga, nem vitimização pessoal, nem encenação médica. Houve cálculo, discurso, plateia. O ex-presidente atrasou a entrega, reuniu militantes no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, falou como quem transforma a própria prisão em manifesto e saiu a pé, cercado de apoiadores. Não parecia um condenado; parecia um líder em exílio interno.
Na cela de Curitiba, Lula não implorou, não chorou, não pediu atenuantes, não aceitou a liberdade condicional com tornozeleira. Leu (dizem) e escreveu cartas. Virou símbolo. O PT fez da prisão uma trincheira política. Pode-se discutir o mérito do processo, e o STF depois o fez, mas não o comportamento. Lula tratou a cadeia como palco e não como humilhação. Outros petistas fizeram parecido. José Dirceu, condenado a penas pesadas, jamais apareceu pedindo clemência pública. Não alegou fragilidade emocional, não se disse confuso, não terceirizou decisões.
Enfrentou a prisão como quadro orgânico de partido, não como indivíduo em pânico. Para o PT, a cadeia virou extensão do palanque. É uma tradição: militância, disciplina e silêncio estratégico.
Em política, chorar é perder enquadramento.
Jair Bolsonaro seguiu roteiro oposto. Perdeu a eleição, não reconheceu a derrota, saiu do país, incentivou ambiguidades e deixou seus seguidores à deriva. O resultado foi o 8 de janeiro, uma explosão do improviso travestido de insurreição. Quando a Justiça chegou, não encontrou um líder preparado para o martírio, mas um ex-presidente desorientado., sem qualquer gesto simbólico construído diante da prisão. Não houve discurso histórico, não houve narrativa de sacrifício, não houve dignidade teatral. Houve justificativas médicas, explicações erráticas, alegações de paranoia, episódios constrangedores envolvendo tornozeleira eletrônica. O homem que se dizia imbatível passou a explicar o inexplicável. Pior ainda foi o comportamento de seus auxiliares. Enquanto o PT cerrou fileiras, o bolsonarismo se dissolveu. Ex-aliados choraram em depoimentos, alegaram confusão mental, pediram delações, tentaram fugir do país, jogaram responsabilidades uns nos outros. Ninguém queria ser o estrategista do golpe. Todos preferiram o papel de figurantes enganados. O bolsonarismo descobriu tarde que bravata não substitui partido. Bolsonaro apostou tudo no carisma e na lealdade pessoal. Quando o poder acabou, acabou junto a fidelidade. Sobrou isolamento, advogados e ex-aliados reescrevendo a própria biografia em tempo real.
A diferença entre Lula e Bolsonaro está nas sentenças e na postura. Lula perdeu a liberdade e ganhou tempo histórico. Bolsonaro perdeu o poder e não soube o que fazer com a queda. Um transformou a prisão em argumento. O outro transformou o argumento em desculpa. No fim, a cela, democrática, recebe todos, sem igualar ninguém. Alguns entram tentando salvar a própria pele; outros, uma narrativa, porque sabem que, na política, a memória costuma ser mais duradoura que a sentença.
Lula saiu da prisão candidato e presidente. Bolsonaro saiu do poder réu e cercado de desertores.
A história não absolve automaticamente ninguém. Mas registra, com ironia cruel, quem soube cair de pé, e quem caiu procurando um álibi.
