Toda revolução começa com o estômago vazio e termina escolhendo vinho. George Orwell, mais econômico, resolveu isso com porcos que falavam em igualdade enquanto aprendiam a gostar de lençóis limpos. No Brasil, país onde a farsa sempre chega antes da ideologia, a revolução acaba desfilando de marca conhecida e posando para foto institucional.
Érica Hilton entra nesse terreiro como símbolo poderoso. Ninguém lhe tira o mérito da ruptura: rompeu cercas, quebrou protocolos, afrontou o curral antigo da política nacional. Foi bandeira antes de ser cargo, grito antes de ser gabinete. Mas o poder, esse velho domador de leões juvenis, tem uma habilidade ancestral, a saber, ensina rápido onde fica o espelho, e o espelho, quase sempre, cobra figurino.
Na Revolução dos Bichos, os porcos começaram falando em igualdade absoluta. “Todos os animais são iguais.” Depois veio a vírgula. Depois a exceção. Depois o rodapé. Não houve traição súbita, mas acomodação progressiva. O porco não acorda tirano; ele aprende que o cocho pode ser exclusivo.
É nesse ponto que a crônica se permite a maldade elegante. Porque Érica Hilton, que chegou prometendo confronto com privilégios, parece ter desenvolvido uma curiosidade seletiva por eles. Não se trata apenas de ideias, mas de gestos. O discurso contra a elite convive com o gosto ostensivo por marcas famosas, por símbolos de distinção que, curiosamente, sempre foram denunciados como opressivos, até caberem bem no corpo certo, na narrativa certa, na selfie certa.
Nada de errado em gostar de coisa boa, dirá um leitor indulgente. E terá razão. O problema é o sermão anterior. Quem passa anos dizendo que o luxo é um pecado estrutural precisa, ao menos, explicar quando virou indulgência plenária. Na granja orwelliana, os porcos não proibiram camas: proibiram camas para os outros.
Some-se a isso o curioso fenômeno dos assessores. Não os experientes, não os técnicos, mas os fiéis — frequentemente sem formação compatível, mas com devoção irrestrita. A política identitária, que prometia qualificação pelo mérito do vivido, parece às vezes confundir vivência com competência. O gabinete vira assembleia de aplauso, não oficina de pensamento. E quem questiona é acusado de heresia moral, não de discordância política.
Revoluções modernas têm horror ao contraditório. Querem diversidade estética, mas unanimidade intelectual. Querem pluralidade de corpos, mas pensamento em linha reta. Nesse cenário, Érica Hilton oscila entre a tribuna inflamada e o cálculo miúdo do poder, ponto no qual a pauta vira senha e a senha vira proteção.
O combate aos privilégios, curiosamente, não alcança os privilégios “do nosso lado”. O sistema é denunciado até o momento em que oferece tapete. Depois, passa a ser “ocupado estrategicamente”. Orwell chamaria isso de reescrita do mural. No Brasil, chamamos de maturidade política.
Érica Hilton não é vilã de fábula nem heroína sem nódoa. É personagem típica de um país que adora revolucionários enquanto eles ainda não sabem usar talheres. Quando aprendem, cobra-se apenas eficiência e silêncio seletivo. A decepção, portanto, não é pessoal: é literária. Esperava-se um romance de ruptura e entregaram um manual de adaptação com capa de grife.
No fim, o Brasil segue sendo essa granja barroca onde todos juram odiar o chicote, desde que, mais adiante, possam segurá-lo com mão firme, assessor fiel e roupa bem passada.
