Jairton Medeiros
O Hospital Municipal de Mossoró, inaugurado sob forte divulgação pela gestão do ex-prefeito Allyson Bezerra e marcado por críticas ao funcionamento, entrou em uma nova fase de investigação do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN). Em 21 de setembro, a 1ª Promotoria de Justiça instaurou um Inquérito Civil para apurar possível redução irregular do horário de atendimento da unidade. A medida aprofunda uma apuração iniciada em maio e representa um novo desdobramento dos questionamentos sobre os serviços oferecidos à população.
O Inquérito Civil nº 04.23.2021.0000147/2026-19 foi instaurado pelo promotor de Justiça Rodrigo Pessoa de Morais. O procedimento busca esclarecer se o horário de funcionamento do hospital está de acordo com as exigências aplicáveis ao serviço público de saúde e se houve alguma redução irregular no atendimento à população.
A decisão de aprofundar a investigação ocorre após meses de questionamentos sobre a estrutura inaugurada pela administração municipal. Apresentado como uma conquista da gestão Allyson, o hospital passou a enfrentar críticas relacionadas principalmente à ausência de atendimento noturno, levantando dúvidas sobre a capacidade efetiva da unidade e a diferença entre os serviços anunciados e aqueles disponibilizados aos moradores.
O caso também reacende a discussão sobre o próprio perfil do equipamento público. Críticos questionam se a estrutura oferece serviços compatíveis com as expectativas criadas em torno de um hospital municipal ou se funciona, na prática, com características de uma clínica de atendimento em horário limitado. Essas críticas, no entanto, ainda não representam conclusões da investigação ministerial.
Antes da instauração do Inquérito Civil, o Ministério Público já havia iniciado diligências por meio de uma Notícia de Fato aberta em maio. Durante essa fase, foram solicitadas informações à Secretaria Municipal de Saúde e ao Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Norte (Coren-RN), com registros de reiteração de pedidos de esclarecimentos.
A documentação do novo procedimento mostra que, no próprio dia 21 de setembro, houve registro de contrafé de ofício destinado ao Coren-RN. A movimentação demonstra a continuidade das diligências para esclarecer as condições de funcionamento da unidade.
O avanço da apuração coloca novamente na discussão uma das obras utilizadas como vitrine administrativa da gestão Allyson Bezerra. A inauguração, marcada pela divulgação institucional, contrasta com os questionamentos posteriores sobre o alcance do atendimento oferecido à população.
Mais do que a entrega de um prédio ou a realização de uma cerimônia, o que está em discussão é a capacidade de o equipamento público cumprir a finalidade para a qual foi anunciado. Para os moradores de Mossoró, a principal questão é saber quais serviços estão disponíveis, em quais horários e se a estrutura atende adequadamente às necessidades de um verdadeiro hospital.
Ainda assim, a abertura dessa nova fase de investigação amplia a cobrança por transparência sobre uma unidade que, desde sua inauguração, tem sido objeto de controvérsias. Para uma gestão que apresentou o hospital como símbolo de avanço na saúde municipal, a apuração reforça a necessidade de demonstrar que a estrutura anunciada corresponde aos serviços efetivamente prestados.
MP também investiga suspeita de descarte irregular de resíduos da obra
Um Procedimento Preparatório instaurado em julho apura possível destinação inadequada de materiais no bairro Ulrick Graff, nas proximidades da sede do Ministério Público
Além dos questionamentos sobre o horário de funcionamento, o Hospital Municipal de Mossoró também está relacionado a outra apuração do Ministério Público do Rio Grande do Norte. Desta vez, a investigação envolve a possível destinação irregular de resíduos provenientes da obra da unidade, inaugurada durante a gestão do ex-prefeito Allyson Bezerra.
O Procedimento Preparatório nº 03.23.2023.0000091/2026-63 foi instaurado em 14 de julho de 2026 pela 3ª Promotoria de Justiça de Mossoró. Conforme o registro oficial, o objetivo é apurar notícia de possível descarte irregular de resíduos da construção no bairro Ulrick Graff, nas imediações da própria sede do Ministério Público.
A investigação ambiental acrescenta outro ponto de questionamento à obra que recebeu destaque na divulgação institucional da administração municipal. Enquanto o funcionamento do hospital é examinado em um Inquérito Civil, a destinação dos materiais provenientes de sua construção também passou a ser objeto de fiscalização ministerial.
Os registros do procedimento mostram que o Ministério Público solicitou informações à Secretaria Municipal de Saúde e à Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Semurb). Em julho, foram expedidos ofícios aos dois órgãos municipais para esclarecimento dos fatos investigados.
A investigação também aponta reiteração de solicitação à Secretaria de Saúde, além de certidão de decurso de prazo em 9 de setembro. No dia seguinte, foi juntada aos autos uma resposta ao ofício encaminhado à pasta. O teor dessa manifestação não está detalhado nas movimentações apresentadas.
O procedimento permanece em andamento, sem conclusão sobre a ocorrência de descarte irregular ou eventual responsabilidade de agentes públicos e empresas envolvidas.
Com as duas apurações, o hospital inaugurado como uma das marcas da gestão Allyson Bezerra continua sob questionamentos que ultrapassam a cerimônia de entrega. Enquanto uma investigação busca esclarecer as condições de atendimento à população, a outra procura verificar a regularidade da destinação dos resíduos da obra.

