Por Jairton Medeiros
A decisão de Álvaro Dias (PL) no segundo turno vai além de escolher entre Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu de Lula (PT). Para o candidato que terminou a primeira etapa da disputa com mais de 530 mil votos, uma eventual aproximação com Allyson significaria também ter de explicar ao eleitor as duras críticas que fez ao adversário durante a campanha. Depois de questionar sua gestão, cobrar explicações sobre investigações e chamá-lo publicamente de “farsante” e “embusteiro”, transformar o adversário em aliado exigiria de Álvaro uma justificativa política para a mudança de posição.
O peso dessa decisão aumentou com o resultado apertado das urnas. Allyson chegou ao segundo turno com 733.809 votos, 36,94% dos válidos, contra 718.300 votos, 36,16%, de Cadu. Álvaro terminou em terceiro, com 530.580 votos, ou 26,71%, tornando-se uma liderança disputada nesta nova etapa da eleição.
Os votos conquistados por Álvaro, naturalmente, não são automaticamente transferidos para quem receber seu apoio. Mas o posicionamento do candidato e de seu grupo político passou a ter relevância na construção dos palanques para o segundo turno.
É justamente aí que está o dilema. Durante a campanha, Álvaro não tratou Allyson apenas como um adversário eleitoral. Fez do então prefeito de Mossoró alvo de alguns dos ataques mais duros da disputa pelo Governo do Estado.
Em debate promovido pelo Grupo Dial, Álvaro chamou Allyson de “farsante” e “embusteiro”. Na mesma ocasião, cobrou do adversário explicações relacionadas à Operação Mederi, investigação da Polícia Federal que alcançou contratos de medicamentos da Prefeitura de Mossoró. “Agora explique a Operação Mederi. Explique, candidato”, disparou.
A investigação também foi explorada por Álvaro em uma peça de campanha divulgada nas redes sociais. Ao comparar sua trajetória política com a de Allyson, o candidato do PL afirmou: “Nesses 38 anos de vida pública, diferente de alguns, eu nunca acordei com a Polícia Federal na minha porta”. A declaração fazia referência à operação da PF que teve entre seus desdobramentos o cumprimento de medidas relacionadas ao então prefeito de Mossoró.
O ataque foi além. Na mesma ofensiva política, a campanha de Álvaro questionou o discurso de renovação apresentado por Allyson e encerrou a provocação com a pergunta: “Allyson é mudança ou é bronca?”. A estratégia reforçava a tentativa de associar o adversário às investigações e confrontar a imagem de novidade política defendida por ele.
Em outro debate, desta vez na Band RN, Álvaro voltou a explorar o assunto e questionou Allyson sobre celulares apreendidos durante a investigação. No confronto, também usou expressões relacionadas aos “segredos” do adversário, ampliando o embate entre os dois candidatos.
As críticas chegaram ainda diretamente à capacidade administrativa de Allyson. Mesmo depois do primeiro turno, Álvaro voltou a questionar a gestão realizada em Mossoró e declarou considerar o adversário um “péssimo gestor”, ao defender que o PL adotasse uma posição de neutralidade no segundo turno.
A declaração torna uma eventual aproximação ainda mais delicada. Já não se trata apenas de relativizar palavras ditas no calor dos debates. Álvaro manteve críticas a Allyson mesmo depois de encerrada a primeira etapa da eleição, quando o cenário do segundo turno já estava definido.
É nesse cenário que a neutralidade aparece como uma alternativa defendida por Álvaro. A escolha, porém, envolve também as articulações nacionais e estaduais do PL e o papel que o partido pretende desempenhar na reta final da eleição.
A decisão de Álvaro terá de medir não apenas alianças e interesses partidários, mas também o peso das palavras que dirigiu aos dois adversários. No caso de Allyson, elas foram especialmente duras. Se decidir apoiá-lo, o desafio será explicar como aquele que durante a campanha foi apresentado como “farsante”, “embusteiro” e “péssimo gestor” passou, poucas semanas depois, a reunir condições para receber seu apoio político.

