A frase “o PT é uma UDN de tamanco”, atribuída a Leonel Brizola, não foi uma maldade improvisada nem um excesso retórico de comício. Foi uma autópsia precoce. Brizola enxergou o cadáver antes do velório. E, como toda verdade dita cedo demais, foi tratada como exagero, intriga ou despeito pessoal. O tempo, esse cínico profissional, encarregou-se de dar razão ao morto-vivo.
A UDN foi o grande partido da virgindade moral ostentatória. Nunca governava, mas sempre sabia como os outros deveriam governar. Era a viúva perpétua da República, vestida de luto ético, apontando o dedo para presidentes eleitos como se fossem adúlteros flagrados no sofá. Seu combustível não era o projeto de poder, mas a indignação. O PT, ao surgir nos anos 1980, prometeu ser o oposto disso tudo: um partido que não falaria sobre o povo, mas como povo; não usaria a moral como arma, mas como método.
Só que aí entra o detalhe inconveniente: a moral também vicia. E vicia rápido.
O PT construiu sua identidade como quem constrói um altar. A ética não era apenas um valor; era um dogma, um selo de pureza ontológica. Não se tratava de fazer política corretamente — tratava-se de ser moralmente superior. Quem discordava não estava errado: estava corrompido. Quem criticava não era adversário: era inimigo da História. Nelson Rodrigues, se estivesse vivo, diria que ali já havia sintoma de tragédia. Toda virtude exibida demais acaba pedindo um escândalo para se equilibrar.
Max Weber, com sua frieza protestante, já havia explicado esse drama com antecedência cirúrgica. Ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade, Weber alertava que o político que age apenas em nome da pureza de intenções costuma produzir os piores resultados — e ainda dorme tranquilo. O PT nasceu como o partido da convicção absoluta. Governar, no entanto, exige responsabilidade. Exige lidar com o impuro, o imperfeito, o negociável. E foi exatamente aí que o tamanco começou a soar como salto alto.
Quando chegou ao poder, o PT não abandonou o moralismo udenista; apenas o redecorou. Continuou falando como quem jamais pisaria no lamaçal, mesmo já estando com os dois pés afundados até o joelho. O Mensalão não foi apenas um escândalo de corrupção; foi uma revelação moral. Não se descobriu ali que o PT fazia o que outros partidos faziam — descobriu-se que ele fazia isso enquanto afirmava ser ontologicamente incapaz de fazê-lo. A hipocrisia não estava no ato; estava no sermão.
O Petrolão, depois, cumpriu o papel que Nelson Rodrigues reservaria à cena final: arrancou a peruca do personagem. Ali caiu o mito fundador. Não havia mais como sustentar a fantasia da exceção ética. O partido que prometera refundar a política mostrou-se perfeitamente adaptado à lei de ferro da oligarquia, formulada por Robert Michels: toda organização que cresce, concentra poder; toda concentração de poder gera casta; toda casta cria seus próprios interesses. O PT não traiu Michels — apenas confirmou sua tese com entusiasmo.
A tragédia, porém, não está no fato de o PT ter se tornado parecido com os outros. Isso era previsível, quase inevitável. A tragédia está em ter passado décadas afirmando que jamais seria.
Como a UDN, o PT acreditou que a moral bastava para substituir a política. Como a UDN, descobriu que a política cobra juros altos quando é negada. A diferença é que a UDN caiu acusando os outros; o PT caiu tentando explicar a si mesmo.
No fim, Brizola estava certo não por maldade, mas por lucidez histórica. O PT foi, sim, uma UDN de tamanco: moralista na oposição, messiânico no discurso e absolutamente humano — humano demais — no exercício do poder. Nelson Rodrigues resumiria sem piedade: o problema não foi o pecado; foi a pose de santo. Porque, em política, nada é mais obsceno do que a virtude em permanente exibição.
