O Rio Grande do Norte sempre teve o hábito de cochichar antes de decidir. Não é terra de rompantes, mas de suspeitas. E, no meio do murmúrio quase doméstico, o anúncio de Fátima Bezerra de que ficará até o fim do mandato, abrindo mão da disputa ao Senado, caiu menos como surpresa e mais como confirmação de um clima que já se desenhava nas entrelinhas das pesquisas de opinião.
Porque pesquisa, no Rio Grande do Norte, não é fotografia, é pressentimento.
Os números que circulam, ainda que variem de instituto para instituto, carregam uma constante: o Partido dos Trabalhadores enfrenta um terreno mais áspero do que aquele que o levou à vitória em 2018 e à reeleição em 2022. Não se trata de colapso, nem de ausência, porque o PT continua vivo, estruturado, com capilaridade e memória. Mas já não é o mesmo personagem central de outros capítulos. É como se tivesse saído do centro do palco e agora disputasse espaço sob uma luz menos generosa.
Há, antes de tudo, o desgaste natural do poder. Governar é perder. Perde-se apoio, perde-se encanto, perde-se a vantagem da promessa. O governo de Fátima, com seus acertos e suas dificuldades, sobretudo na segurança, nas finanças e na capacidade de resposta rápida, não foi pior do os dois últimos, o de Rosalba e o de Robinson, duas tragédias paquidérmicas, mas deixou marcas que não desaparecem ao sabor do discurso. E o eleitor potiguar, que pode até perdoar, raramente esquece.
No plano estadual, o cenário para o governo é de fragmentação. Não há, até aqui, uma candidatura hegemônica, o que, em tese, abriria espaço para o PT. Mas há um detalhe: o partido também não conseguiu encontrar um nome que una sua base e dialogue com o eleitorado mais amplo. Falta aquele candidato que não apenas represente o governo, mas que o transcenda. E isso, em política, é fatal.
O eleitor por vezes quer continuidade com novidade, uma contradição que poucos conseguem encarnar. Quando não encontra, opta pela ruptura ou pela experiência alheia. É nesse vazio que adversários crescem, especialmente aqueles que se apresentam como alternativa sem carregar o peso da máquina.
Para o Senado, o quadro é ainda mais delicado. A desistência de Fátima não é apenas uma escolha pessoal e, sim, um sintoma. Indica que a disputa majoritária, especialmente para uma vaga única, exige densidade eleitoral imediata, algo que o PT, neste momento, parece não ter consolidado com segurança. E a disputa pelas duas vagas senatoriais não perdoa hesitações. É uma eleição de nome, de recall, de presença quase intuitiva na cabeça do eleitor. E, sem Fátima na disputa, o partido perde sua figura mais testada nas urnas. Resta construir – ou reconstruir – um nome capaz de ocupar esse espaço, o que não se faz da noite para o dia. Enquanto isso, adversários se movimentam. Alguns com discursos mais à direita, surfando numa onda nacional que ainda encontra eco; outros tentando ocupar o centro, esse território sempre disputado e sempre indefinido. O fato é que o campo se amplia, e o PT, que antes organizava o jogo, agora precisa jogar dentro dele.
Mas há um dado que não pode ser ignorado: o PT tem base. Tem militância. Tem identidade. E, sobretudo, tem história recente de vitórias no estado e no país. E tem Lula, e Lula é muito forte no Rio Grande do Norte. Tudo isso somado significa que o PT não está fora do jogo, apenas já não entra como favorito automático.
O Rio Grande do Norte, nesse momento, parece viver uma espécie de transição silenciosa. Não é uma ruptura brusca, mas uma reacomodação de forças. O eleitor observa, mede, compara e, ao contrário do que muitos imaginam, não decide apenas com base em ideologia, decide com base em experiência, percepção de gestão e, sobretudo, expectativa de futuro. E no estilo quase confidencial do potiguar, a eleição vai sendo decidida nas conversas de calçada, nos grupos de família, nas análises desconfiadas de quem já viu promessas demais. E, nesse ambiente, o PT precisa mais do que discurso, precisa reconectar-se. Reconectar-se com a esperança que já mobilizou, com a eficiência que precisa demonstrar e com a humildade que o momento exige. Se conseguirá, é outra história.
Por ora, o que se vê é um partido que, embora ainda relevante, enfrenta talvez seu maior desafio recente no estado, a saber, provar que não é apenas o passado recente do Rio Grande do Norte, mas que ainda pode ser o seu futuro. E isso, caros leitores, no silêncio atento do eleitor potiguar, ainda está em aberto.
