Na vida cotidiana, as mulheres seguem acumulando funções que vão muito além daquelas tradicionalmente atribuídas a elas. São profissionais, mães, filhas, líderes, cuidadoras, estudantes, empreendedoras e, cada vez mais, protagonistas de suas próprias escolhas. Entre jornadas múltiplas e decisões que moldam o presente e o futuro, elas também refletem as transformações profundas pelas quais passam as famílias brasileiras. O modelo único, centrado no casal com filhos, já não dá conta de explicar a diversidade de arranjos que se consolidam no país.
Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE, confirmam essa virada histórica. Pela primeira vez, os casais com filhos deixaram de ser maioria, representando 42% das famílias no Brasil. Em 2000, esse formato ultrapassava a metade dos lares brasileiros. Em paralelo, crescem os domicílios formados por pessoas que moram sozinhas, casais sem filhos e famílias chefiadas por mulheres, um movimento que acompanha mudanças culturais, econômicas e sociais.
Embora o número de famílias com filhos tenha diminuído proporcionalmente, centenas de milhares de mulheres no Rio Grande do Norte e em todo o país seguem se reinventando diariamente para conciliar a vida profissional com os papéis de mães, responsáveis pelo lar e referências emocionais. Longe de ser apenas sinônimo de sobrecarga, essa conciliação, quando possível, também é vivida como exercício de empoderamento, autonomia e desenvolvimento pessoal.
A maternidade, para muitas mulheres, se transforma em uma escola prática de habilidades valorizadas no mercado de trabalho. Paciência, empatia, organização, capacidade de tomar decisões sob pressão e liderança pelo exemplo passam a fazer parte do cotidiano dentro e fora de casa. Ao mesmo tempo, manter a carreira garante independência financeira, autoestima e a possibilidade de servir de referência para os filhos, que crescem observando modelos mais igualitários de gênero.
Esse equilíbrio, no entanto, não acontece sem desafios. Ele exige escolhas, renegociações constantes e, sobretudo, uma rede de apoio que envolva família, amigos e ambientes de trabalho mais flexíveis. Quando esse suporte existe, a maternidade deixa de ser vista como obstáculo e passa a integrar, de forma mais saudável, o projeto de vida da mulher.
É o que vive Diana Petta, gerente de marketing, casada e mãe de Anita, de 11 anos. À frente da área de marketing de um shopping center em Natal, ela percebe claramente a transformação provocada pela maternidade em sua trajetória pessoal e profissional. “Eu posso dizer que existe uma profissional e uma mulher antes e depois de eu me tornar mãe de Anita. Me tornar mãe foi algo que me transformou não só na minha vida pessoal, mas também na minha vida profissional”, afirma.
Para Diana, a maternidade não compete com a carreira, mas ajuda a estruturá-la. “Ser mãe hoje é minha prioridade, não no sentido de disputar espaço com a profissão, mas de me dar diretriz e propósito. Isso não diminui minha ambição profissional, nem o quanto eu quero crescer”, ressalta. Segundo ela, foi na prática da maternidade que muitas habilidades de gestão se aprofundaram. “Você aprende gestão no dia a dia. Tomada de decisão, lidar com pressão, empatia real, liderança pelo exemplo. A mesma liderança que você exerce em casa é a que leva para o trabalho”, completa.
A gestora destaca que a maternidade ampliou seu olhar humano sobre as equipes que lidera.
“Aprendi a enxergar pessoas além dos cargos. Isso traz um olhar mais consciente sobre o impacto das escolhas que fazemos todos os dias”, diz. Para ela, não há forças opostas entre liderar e maternar. “São papéis complementares. A mulher que educa, acolhe, organiza e resolve conflitos em casa é a mesma que faz isso no ambiente profissional”, afirma.
Mesmo sem acreditar em fórmulas prontas, Diana defende a importância de estabelecer limites e momentos inegociáveis com a filha. “Existem fases em que um pilar exige mais do que o outro. O importante é ter consciência de que ambos são fundamentais”, afirma, ressaltando também o papel das empresas nesse processo. “É valioso encontrar um ambiente de trabalho que permita essa conciliação e reconheça o momento pessoal como algo importante.” Ao olhar sua trajetória, resume: “Não seria a profissional que sou se não pudesse ser a mãe que quero ser”.
Outra realidade, marcada por desafios ainda mais intensos, é a vivida por Gislaine Azevedo, jornalista e mãe de Lucas, de 9 anos. Divorciada, ela administra sozinha a rotina profissional e doméstica, sem uma rede de apoio constante. “Quando decidi me separar, ouvi muitas críticas de que não daria conta de criar meu filho sozinha. Ele tinha seis anos na época”, conta.
Gislaine reconhece o peso da responsabilidade integral. “Não tem pausa, não tem turno, não tem fim de semana. É um desafio enorme, principalmente quando não se tem rede de apoio”, afirma.
O pai de Lucas é presente, mas mora em outro estado e participa mais ativamente durante as férias. No dia a dia, a jornalista conta com o auxílio de uma babá, enquanto os pais vivem em outra cidade e ela não tem irmãos.
Além dos desafios financeiros que surgem ocasionalmente, Gislaine destaca o impacto emocional da maternidade solo. “O mais pesado é o emocional. É precisar ser firme mesmo quando estou desmoronando por dentro. Aprendi a engolir o choro no banho para conseguir sorrir na hora de ajudar na lição de casa”, relata. Há dias em que a sensação de insuficiência aparece, mas pequenos gestos do filho renovam suas forças. “Às vezes ele me abraça sem dizer nada. Aquilo me reabastece”, diz.
Para ela, a maternidade solo revelou uma força desconhecida. “Descobri que criar meu filho, praticamente sozinha, não é sobre dar conta de tudo perfeitamente, mas aceitar que sou humana, que erro, que me canso. E mesmo assim sigo. Porque no fim, quando ele diz ‘mãe, eu te amo’, eu lembro por que continuo”, conclui, emocionada.
Fora do roteiro tradicional, mulheres redefinem o que é realização pessoal

Nem todas as mulheres, no entanto, seguem o caminho da maternidade. No Brasil e no mundo, cresce o número daquelas que optam por não ter filhos e por não seguir uma cartilha tradicional que associa realização feminina ao casamento e à maternidade. Entre brasileiras de 50 a 59 anos, a proporção de mulheres sem filhos subiu de 10% em 2000 para 16,1% em 2022. A taxa de fecundidade nacional caiu para 1,55 filho por mulher, a menor da história, refletindo mudanças profundas nas prioridades e nos projetos de vida.
Fatores como autonomia, foco na carreira, custos financeiros, desejo de liberdade e a compreensão de que o instinto materno não é universal ajudam a explicar essa escolha. Mulheres com ensino superior completo apresentam as menores taxas de fecundidade e adiam a maternidade para idades mais avançadas. Apesar da maior aceitação social, elas ainda enfrentam julgamentos e perguntas invasivas sobre suas decisões.
Prestes a completar 43 anos, a arquiteta Cintya Bullé, traduz esse movimento em palavras. “A maturidade traz uma liberdade que a juventude, às vezes, desconhece. Hoje, a pressão social existe, mas não tem mais o peso de obrigação”, afirma. Para ela, realização não depende de protocolos externos. “Minha vida profissional ativa e uma vida social que eu realmente curto são conquistas. A escolha pela solitude e pela ausência de filhos, neste momento, não é uma falta, mas uma escolha de liberdade”, diz.
Ao fortalecer laços com família e amigos, Cintya constrói a base que sustenta suas decisões.
“Aprendemos que a felicidade tem muitas formas. Estar bem consigo mesma é o primeiro passo para estar bem com o mundo”, conclui.

