Há algo de comovente, e ao mesmo tempo de profundamente ridículo, no debate público brasileiro. Não é a discordância que impressiona, nem o conflito de ideias. É a pobreza mental. É a sensação incômoda de que estamos diante de uma multidão que pensa com o mesmo cérebro alugado, e, ainda assim, atrasado.
O brasileiro médio entra numa discussão sem argumentos. Entra com reflexos. Não pensa, reage. Não analisa, classifica. E classifica mal, com a segurança insolente de quem jamais duvidou de si mesmo, justamente porque nunca leu o suficiente para duvidar.
Há, no crânio nacional, uma tragédia anatômica: dois neurônios. Apenas dois. E, para piorar, batizados com nomes pomposos e aparentemente profundos: burguesia e proletariado. São neurônios cansados, mal alimentados, que vivem de repetir as mesmas sinapses preguiçosas desde o tempo em que barbas espessos ainda eram sinal de teoria. E esses dois neurônios não pensam. Duelam. De um lado, o neurônio burguesia, que rosna para tudo o que vê. Do outro, o neurônio proletariado, que responde com indignação automática. No meio, onde deveria haver pensamento, há um vazio constrangedor, um eco oco de palavras que o sujeito ouviu em algum lugar e resolveu adotar como se fossem suas.
E então acontece o milagre às avessas: qualquer assunto, absolutamente qualquer assunto, é triturado até caber nesse duelo de amebas conceituais. Economia? Burguesia. Cultura?
Proletariado. Educação? Burguesia explorando o proletariado. Tecnologia? Proletariado sendo oprimido pela burguesia. Se surgir um tema novo – inteligência artificial ou crise ambiental – não importa. Em poucos segundos, os dois neurônios entram em ação e reduzem o universo a uma briga de condomínio ideológico. É a luta de classes marxista transferida para a cabeça oca dos pensadores vazios.
O mais grave, porém, não é a burrice. Burrice, convenhamos, é um dado da natureza. O mais grave é a burrice orgulhosa, militante, convicta. É o sujeito que não lê – ou, quando lê, lê mal – e ainda assim fala como se estivesse corrigindo o mundo. Porque há também essa subespécie particularmente perniciosa: o leitor precário. Não é o analfabeto, que ao menos tem a dignidade da ignorância assumida. É o semiletrado, o sujeito que leu um resumo, uma orelha de livro, um prefácio, um fio de rede social, um trecho fora de contexto, e saiu por aí como um profeta de rodapé. Ele, que não entendeu o que leu, não se sente impedido de proclamar verdades absolutas.
Pelo contrário: o mal-entendido lhe dá uma confiança inédita. Ele transforma conceitos complexos em slogans, teorias densas em caricaturas, autores difíceis em mascotes de discussão.
E, com isso, alimenta seus dois neurônios raquíticos, que passam a repetir, com entusiasmo bovino, aquilo que nunca foi realmente compreendido.
É assim que o debate público se transforma num espetáculo de simplificações grotescas. Não há nuance, não há dúvida, não há esforço intelectual. Há apenas a repetição mecânica de categorias mal digeridas, como se o mundo fosse uma peça infantil encenada por adultos preguiçosos. E quem ousa complicar, quem sugere que a realidade é mais rica, mais contraditória, mais difícil de encaixar, é imediatamente visto como suspeito. Afinal, para quem só tem dois neurônios, qualquer terceiro elemento já parece um excesso intolerável.
O problema, vamos e venhamos, não é ideológico. É cognitivo. Falta leitura. Falta compreensão.
Falta interpretação. Falta, sobretudo, humildade intelectual, uma virtude raríssima que faz alguém admitir: “Talvez eu não tenha entendido”. Mas não, o brasileiro médio prefere a ilusão da certeza à angústia da dúvida. Prefere o conforto da simplificação à dor de pensar. E assim seguimos, produzindo debates que não passam de monólogos simultâneos, nos quais cada um fala sozinho, embalado pela falsa erudição de seus dois neurônios batizados – burguesia e proletariado. Eis o cérebro nacional.
E pensar que já fomos capazes de mais.
Historiador
