O governo realizou hoje três operações de combate ao crime organizado. A operação integrada identificou a participação de fintechs, postos de combustível e até investimento em fundos financeiros para a lavagem de dinheiro. A repórter Raquel Mariano está ao vivo e traz as informações. As ações, batizadas de Quasar, Tank e Carbono Oculto foram realizadas pelos Ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Fazenda, Receita Federal e diversos órgãos públicos.
- Operação Quasar desarticulou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro por meio de fundos de investimento fraudulentos.
- Operação Tank mirou uma rede que movimentou mais de R$ 23 bilhões no Paraná, com fraudes em postos de combustíveis e lavagem de dinheiro em empresas de fachada.
- Operação Carbono Oculto revelou um esquema bilionário de sonegação e lavagem, envolvendo importadoras, distribuidoras e até fintechs usadas como bancos paralelos.
Foram identificadas as compras e participações de um terminal portuário, quatro usinas produtoras de etanol, uma frota de 1.600 caminhões e mais de 100 imóveis, sendo seis fazendas avaliadas em R$ 31 milhões e uma casa de R4 13 milhões.
A Polícia Federal detalhou um pouco mais das apreensões.
- 141 veículos apreendidos, além de 1.500 veículos com determinação judicial de sequestro
- Mais de R$ 300 mil em dinheiro
- Bloqueio de mais de R$ 1 milhão
- Bloqueio total de 21 fundos
- Ações em relação a 41 pessoas físicas, 255 pessoas jurídicas, sequestro de 192 imóveis, e duas embarcações.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacou que sufocar financeiramente o crime é mais eficaz do que apenas prender pessoas, porque impede a continuidade das atividades ilícitas.
“O crime se sofistica e o Estado tem que sofisticar a sua ação contra o crime. Porque se você prende uma pessoa, mas o dinheiro fica à disposição do crime, essa pessoa presa vai ser substituída por outra. E, em geral, o que fica preso é o personagem menos importante da estrutura criminosa”, explicou. “Essa operação é exemplar porque conseguiu chegar no andar de cima do sistema.”
Em nota, a Receita Federal responsabilizou fake news e campanhas enganosas nas redes contra o Pix, no mês de janeiro, pelo atraso nas medidas destinadas a fechar brechas por meio das quais o crime movimenta, oculta e lava seu dinheiro sujo .
A seguir, em entrevista para A Voz do Brasil, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, falou sobre a atuação conjunta de diversos órgãos do Governo Federal para o aprofundamento das investigações e o impacto significativo no coração financeiro da maior organização criminosa do país.
Ministro, hoje foram deflagradas duas operações comandadas pela Polícia Federal e mais uma pelo Ministério Público de São Paulo com a Receita Federal. Eu queria que o senhor começasse explicando pra gente como que as inteligências e diversos órgãos do governo chegaram nessas operações.
Bem, na verdade nós de longa data percebemos um fenômeno grave, que não é só brasileiro, porque ocorre em vários países, que é a migração do crime, especialmente do crime organizado, da ilegalidade para a legalidade. Então, nós chegamos à conclusão também que os instrumentos tradicionais de combate à criminalidade, especialmente à repressão policial, não eram suficientes para enfrentar um fenômeno tão complexo como esse, que envolve inclusive análises financeiras, contábeis, fiscais, da atuação do crime organizado.
Então, no começo deste ano, em 17 de janeiro, nós criamos aqui no Ministério da Justiça e Segurança Pública um núcleo de combate ao crime organizado, para ter uma visão mais abrangente da atuação do crime organizado nos diversos setores.
E no dia 5 de fevereiro de 2025 nós fizemos uma primeira reunião com foco num aspecto do crime organizado, justamente a sua infiltração no setor de combustível, que infelizmente aqui já estava bastante alargada esta infiltração.
Nós fizemos uma primeira reunião, da qual participaram vários servidores aqui do Ministério da Justiça, especialmente da área de Segurança Pública, Polícia Federal participou, Polícia Rodoviária Federal participou, participou também a Polícia Penal Federal, participou representantes de vários outros órgãos, ou participaram, como o Ministério de Minas e Energia, o Cade, a Receita Federal e o próprio Coaf. E resolvemos então fazer um enfoque multissetorial ou multidisciplinar a esta infiltração do crime organizado no setor de combustível.
Portanto, envolvendo não apenas, uma repressão física da adulteração dos combustíveis nos postos de gasolina, mas também a importação de metanol, que era desviada dos seus destinos legais para outras finalidades ilegais. Nós também focamos na lavagem de dinheiro resultante desta atividade ilícita e, portanto, nós entendemos que a participação, sobretudo da Receita Federal, era importantíssima. Então, nós verificamos que esse dinheiro auferido com atividades ilegais no setor de combustível era lavado, esse dinheiro era lavado por meio das Fintechs e por meio de administradoras de fundos financeiros.
E foram várias operações, que demandaram muito esforço, muito planejamento e foram, finalmente, hoje desencadeadas com resultado bastante significativo.
Ministro, o senhor poderia detalhar um pouco mais o que foi descoberto nessas operações? O senhor falou aí de postos de combustível, fundos de investimento, até fintechs, não é isso?
Exatamente. Bom, primeiro foram cumpridos 400 mandados judiciais, obviamente, sempre com determinação da Justiça. Portanto, não houve nenhuma arbitrariedade nessas operações. Nessas operações nós descobrimos R$ 140 bilhões de movimentações ilícitas. Nós logramos bloquear e sequestrar mais de R 3,2 bilhões em bens e valores. E, além disso, nós cumprimos 14 mandados de prisão e centenas de buscas e apreensões. Nós, então, nem tínhamos ideia da dimensão desse esquema ilícito.
E, por meio dessas três operações, que foram denominadas Quasar, Tanque e Carbono Oculto, conseguimos penetrar no âmago, no coração, dessa atividade ilícita, que é justamente a exploração desse setor de combustíveis por parte do crime organizado. Que operava não apenas, como eu disse, na adulteração do combustível – e, portanto, em detrimento do consumidor, que comprava um produto adulterado –, mas também descobrimos que havia toda uma rede de importação de metanol, que era desviado das refinarias, ia para outros destinatários, mas também, o que é mais importante, esta questão da lavagem do dinheiro.
Hoje, a grande preocupação que os órgãos de segurança têm é com a descapitalização do crime organizado. O crime organizado precisa ser sufocado financeiramente e este foi um exemplo de uma operação, ou de várias operações, bem-sucedidas nesse sentido.”
Pois é, ministro, eu ia tocar nesse ponto, justamente porque é um trabalho que o Ministério da Justiça já vem fazendo, antes dessa operação, de focar no financiamento das organizações criminosas e sufocar elas financeiramente. Eu queria que o senhor, então, comentasse se vocês conseguiram atingir lideranças de alto nível com essa operação de hoje, essas lideranças dessa organização criminosa e essa questão do financiamento também. O senhor falou em R$ 140 bilhões de movimentação total. Quanto vocês conseguiram, digamos assim, sufocar desse valor?
Bem, o que nós esperamos é, agora, chegar, realmente, a todos os níveis hierárquicos dessas organizações criminosas. O que nós pudemos identificar, até o momento, são supostos responsáveis por essa lavagem de dinheiro. São aqueles que eram os gerentes, ou os CEOs, ou os proprietários dessas fintechs e dessas administradoras de fundo.
Agora, nós, deste ponto para baixo, vamos refazer o caminho. Nós descobrimos a ponta desse iceberg e vamos, agora, descobrir a base, quem está na base. Já conseguimos identificar mais de mil postos de gasolina que estavam envolvidos nesse esquema, lavando dinheiro e fornecendo produtos adulterados. E, agora, essas operações, evidentemente, vão continuar.
Nós, com esses mandados de busca e apreensões, centenas de buscas e apreensões, arrecadamos um material que precisa ser decodificado. Precisa ser estudado. E isso leva um certo tempo. Mas, a partir do deciframento desses documentos vamos, então, ter novos desdobramentos. Possivelmente, até outras prisões.”
A PEC da Segurança, que o senhor enviou ao Congresso Nacional, de que forma está ajudando nessa mudança do ritmo ou da estratégia de investigação?
Pois é. A operação de hoje, envolveu não só a cooperação de órgãos na área federal, sobretudo a Polícia Federal, com a Receita Federal, mas também a cooperação dos ministérios públicos de 10 estados. Envolveu polícias, civis e militares locais. Então, mostrou a importância da cooperação das Forças de Segurança ao nível federativo.
Então, esta PEC que está tramitando no Congresso Nacional, tem exatamente esse escopo, esse objetivo. Permitir uma cooperação permanente das Forças de Segurança das 27 unidades da federação. Porque como o crime organizado não é mais local, mas nacional e até transnacional, é só o governo federal, a meu ver, é que pode fornecer as diretrizes para uma cooperação mais ampla ao nível federativo.
E por isso que nós insistimos e achamos que é fundamental a aprovação dessa PEC para fazer com que esta operação bem-sucedida, que é uma operação isolada nesse momento, se transforme em outras operações de caráter institucional e permanente.