A pesquisa está ao alcance de qualquer eleitor: basta saber qual o CPF ou o CNPJ de uma empresa e verificar no site da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) se aquele número está na lista de devedores da União. Ali estão campeões. A Refinaria de Petróleo de Maguinhos, a Refit, do empresário Ricardo Magro, está lá, com seus R$ 35.148.900.463,98 em dívidas tributárias e previdenciárias. É nessa lista que aparece a família Poncio, com uma dívida que chega a R$ 2.929.182.175,11 só com a União.
Seria só mais um suposto caso de devedor contumaz caso, entre os CPFs envolvidos nessa conta bilionária, não estivesse o de uma deputada estadual: Sarah Poncio (Solidariedade), cujo CPF carrega uma dívida de R$ 1.745.935.726,23, um acréscimo de R$ 200 milhões em relação ao débito que a influencer tinha quando assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio, em janeiro de 2025. Ela ganhou o cargo quando o então deputado Tande Vieira (PP) tomou posse como prefeito eleito de Resende (RJ).
Para se ter uma ideia da dimensão da dívida da deputada, ela representa a soma das dívidas que 467 políticos eleitos em 2022 tinham com a PGFN.
A dívida dos políticos
| Nomes | Valor da dívida |
|---|---|
| Sarah Pôncio (dep. est. SDD-RJ) | 1.745.935.726,23 |
| Jadyel Silva Alencar (Republicano-PI) | 124.142.492,83 |
| Jader Barbalho (MDB-PA) | 88.524.307,38 |
| Elcione Brabalho (MDB-PA) | 75.345.224,07 |
| João Carlos Bacelar (PL-BA) | 15.332.472,44 |
| Mário Lúcio Heringer (PDT-MG) | 11.390.637,85 |
Quando tomou posse, em 2025, a deputada dizia que ia resolver as dívidas, que ia provar que elas não eram dela nem de sua família. Seu pai, o pastor Márcio José Matos Poncio de Souza, tem a mesma dívida, solidariamene, em seu CPF. Já a mãe, a pastora Simone Poncio Silva de Souza, compartilha ainda em seu CPF R$ 1.457.777.376,55 em débitos tributários, incluindo aí alguns débitos comuns aos familiares e outros distintos.
As dívidas dos Poncios são compartilhadas pois os CPFs da família estão associados a CNPJs de um mesmo grupo de empresas. A repetição dos sócios faz com que não seja possível simplesmente somar as dívidas individuais de cada um para saber a dívida total da família.
O número de quase R$ 3 bilhões é uma estimativa feita após a retirada de duplicidade de dívidas. Assim foi possível chegar à conclusão que a deputada é a politica com a maior dívida do País, pelos menos entre os parlamentares pesquisados pelo Estadão.

Ao todo, o grupo empresarial da família Poncio tem 21 empresas, das quais seis são do ramo do tabaco, o que fez com que o patriarca, o pastor Poncio, fosse conhecido como o Pastor do Cigarro, uma de suas qualidades que despertam resistências entre os evangélicos, segundo lideranças religiosas neopentecostais consultados pelo Estadão.
O incômodo também se deve ao crescimento da igreja do pastor: a Igreja da Nuvem, que passou a promover cultos online e lives na pandemia e hoje expande seus templos pelo Rio.
A análise das cobranças feitas pela Receita Federal à deputada mostra que ela deve R$ 1,318 bilhão só em sonegação de IPI. A segunda maior dívida é de Cofins: são nove cobranças que, somadas, chegam ao total de R$ 114,8 milhões.
Patrimônio declarado à Justiça Eleitoral
| Nomes | Valor |
|---|---|
| Sarah Pôncio (dep. est. SDD-RJ) | 2.024.860,50 |
| Jadyel Silva Alencar (Republicano-PI) | 107.545.780,00 |
| Jader Barbalho (MDB-PA) | 13.180.528,85 |
| Elcione Brabalho (MDB-PA) | 6.623.901,02 |
| João Carlos Bacelar (PL-BA) | 9.917.969,00 |
| Mário Lúcio Heringer (PDT-MG) | 10.335.687,72 |
Já o não pagamento de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) atingiu R$ 113,4 milhões. Há ainda R$ 45,2 milhões de Contribuição Social devida e outros R$ 22,9 milhões de PIS que deixaram de ser recolhidos pelas empresas associadas ao CPF da parlamentar, além de multas e outras dívidas menores.
Segundo o cientista político Leandro Piquet, as fábricas de cigarros dos Poncios constam da base de dados de devedores contumazes da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP). Piquet foi ouvido na terça-feira, dia 31, pela CPMI do Crime Organizado do Congresso. Ele é um estudioso dos mercados ilegais e do prejuízo causado por eles à economia do País.
“As pessoas compram produtos sem nota fiscal, compram produtos falsificados e movimentam bilhões na economia”, afirmou.
Durante três anos, o empresário Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal, percorreu gabinetes do Congresso para que a lei do devedor contumaz fosse examinada no Senado e na Câmara dos Deputados. Para ele, a existência de políticos com dívidas altas, como o caso do R$ 1,7 bilhão devido pela deputada estadual, ajuda a explicar a dificuldade encontrada para a aprovação da lei.
“Aí você entende porque a legislação demorou oito anos para ser votada. Essa questão, que era fundamental para o país, não conseguiu avançar a não ser quando veio a Carbono Oculto. Com a Carbono Oculto (operação que investigou a captura da cadeia produtiva de combustíveis pelo crime organizado), quem se colocasse contra o projeto se aliaria ao crime organizado e em sete dias após a operação, o projeto andou”, contou.
De acordo com ele, na área do cigarro tem muita sonegação. “Com a lei do devedor contumaz, os empresários sérios do setor vão se beneficiar”, afirmou. “Cigarro, bebidas, combustíveis são setores que vão se beneficiar muito.” Segundo ele, quanto maior a tributação do setor, maior é o apetite para sonegação e a concorrência desleal.
Presença forte nas redes sociais e empresas
A família Poncio é conhecida das redes sociais e tem entre seus membros o cantor gospel Saulo Poncio, irmão da deputada. A família é muito ativa nas plataformas.
Sarah, por exemplo, tem 3,4 milhões de seguidores no Instagram. Já Saulo tem 2 milhões de seguidores na mesma rede, enquanto sua atual mulher, a influenciadora Caroline Barbosa, conta com 121 mil – Gabi Brandt, ex-mulher de Saulo e mãe de três de seus filhos registra 6,1 milhões de seguidores.
O patriarca Márcio Pôncio registra 546 mil seguidores, enquanto sua mulher, a postora Simone Poncio, conta com 189 mil.
A presença nas redes sociais é o que impulsionou a candidatura de Sarah a deputada federal na eleição de 2022, em dobradinha com o pai, que concorreu a deputado federal pelo PROS. Ambos ficaram como suplentes. Sarah teve 26 mil votos e continua ativa nas redes para divulgar seu mandato de deputada, assim como seu pai.
No dia 22 de janeiro, por exemplo, ela divulgou a inauguração do Instituo Poncio, em Duque de Caxias (RJ), parte das “obras sociais da família”. Sete dias depois, postou a inauguração de uma fábrica de bebidas, em Três Rios (RJ).
Durante a campanha de 2022, nas publicações de suas redes sociais, os então candidatos apareciam juntos pelas ruas da Baixada Fluminense – a família é originária de Duque de Caxias, mesma cidade de onde saiu outra figura famosa do mercado de tabaco do Rio, o bicheiro Adílson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, preso em 26 de fevereiro pela Polícia Federal.
No caso do tabaco, a família tem fábricas em Três Rios e Duque de Caxias. Quatro das empresas de tabaco dos Poncio registram as maiores dívidas com a União: a Distribuidora Gudang Brasil Ltda, a Clean Indústria e Comércio de Cigarros, a New Ficet Indústria e Comércio de Cigarros Importação e Exportação Ltda e a Win Distribuidora de Cigarros.
A família tem ainda empresas de produção artística e eventos, compra e venda de imóveis, construção, restaurantes e táxi aéreo e, apesar das dívidas bilionárias, ostenta muito luxo nas redes sociais.
A família também não fugiu de polêmicas, antes mesmo de entrar para a política. Em 2017, o clã chocou seus milhões de seguidores na internet quando veio à tona que o então marido de Sarah, o cantor gospel e coach Jonathan Couto, havia engravidado a mulher de seu cunhado, Saulo Poncio, irmão de Sarah. O bebê foi concebido no ano anterior praticamente ao mesmo tempo em que Jonathan também engravidou Sarah Poncio.
A trama foi revelada pelos próprios envolvidos em seus perfis no Instagram. A história começou a ser contada por Saulo, irmão de Sarah. Um belo dia, ele publicou que estava namorando uma influencer que participara do reality show De Férias com o Ex. O público estranhou, e ele foi questionado sobre o que havia acontecido com a atriz Letícia Almeida, sua ex-mulher, que havia estrelado Meu Pedacinho de Chão, novela da Rede Globo.
Saulo deu, então, a resposta estarrecedora: disse ter se separado dela depois de um exame de DNA ter mostrado que a menina que ele pensara ter com a atriz era, na verdade, filha de Jonathan Couto, então marido de sua irmã, Sarah.
Após o alvoroço nas redes sociais, a parlamentar foi às redes sociais dizer que perdoava o marido, com quem teve ainda um segundo filho, causando furor entre os evangélicos que frequentavam a Igreja Pentecostal Anabatista, no Rio, onde Letícia conhecera Saulo.
Sarah se formou em ciência política e se filiou ao PROS, partido pelo qual disputou a eleição de 2022, quando declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 2 milhões em bens – seu pai declarou ter R$ 1 milhão. Tudo muito distante das dívidas bilionárias do clã.
Lei do devedor contumaz foi sancionada em janeiro
Após a aprovação do Congresso, o residente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, em janeiro, a Lei Complementar 225, que cria o Código de Defesa do Contribuinte e que tem como destaque justamente a tipificação do devedor contumaz. Segundo a nova legislação, caracteriza-se como devedor contumaz “o sujeito passivo, na condição de devedor principal ou de corresponsável, cujo comportamento fiscal se caracteriza pela inadimplência substancial, reiterada e injustificada de tributos”.
De acordo com a lei, esse enquadramento deverá ser notificado com antecedência às empresas, que terão 30 dias para regularizar sua situação ou apresentar defesa. A legislação prevê que empresas classificadas como devedoras contumazes terão até mesmo o CNPJ baixado em algumas hipóteses, como quando tiver sido constituída para a prática de fraude, conluio ou sonegação fiscal, ou se for fraudulentamente constituída, gerida, dirigida ou adminsitrada por interpostas pessoas “laranjas”.
Essas empresas também não vão poder usar benefícios fiscais, participar de licitações, ter vínculo com a administração pública ou propor recuperação judicial. Elas também serão consideradas inaptas no cadastro de contribuintes, o que também restringe a atuação da empresa. A legislação também determina que o devedor não possa escapar da responsabilização penal apenas quitando esses débitos tributários. Assim, a extinção da punibilidade pelo pagamento do tributo não valerá para o devedor contumaz.
*Com informações do Estadão

