Dentre as diversas formas de gerar um filho, algumas mulheres esperam bem mais do que nove meses para realizar o sonho da maternidade e, em alguns casos, os filhos não nascem de seus ventres, mas sim do coração, por meio da adoção. A professora Tatiana Moritz, 43 anos, lembra que ainda era criança quando decidiu que seria mãe por meio da adoção, independente do acontecesse em sua vida, já tinha ali a certeza de que um dia seus filhos chegariam por meio deste ato que requer muito amor e perseverança: “Ser mãe pela adoção, para mim, não foi uma opção, foi uma escolha! Eu escolhi ser mãe dessa forma, em detrimento a todas as outras. Não tive filhos biológicos, mas isso nunca me angustiou, pois sabia que seria mãe por adoção. ”
Mãe solo, a professora da UERN-Natal, relata que o início do processo foi muito tranquilo e rápido, por meio de visita da equipe técnica, que chega de surpresa e faz avaliações pessoais e sobre a moradia, dentre outros segmentos. Depois de uns meses ela recebeu a comunicação que estava habilitada para a adoção.
Em julho de 2017, Tatiana entrou no sistema de adoção e no início de 2020 estava entre os primeiros adotantes da fila, o que gerou muitas expectativas. Porém, a pandemia dificultou o processo e, enquanto aguardava por respostas, ela tentou se acalmar participando de palestras virtuais e se empenhando nos estudos sobre a adoção. O primeiro encontro com suas filhas foi no dia 29/03/2021. Após o período de estágio de convivência, a audiência para formalização oficial da família aconteceu em 02/02/2022.

Na época, Alexandra tinha 4 anos e Ana Larissa 1 ano e 6 meses. Uma enorme surpresa para Tatiana que, no cadastro de adoção, tinha traçado o perfil de um menino por volta dos 5 anos, mas as duas irmãs mudaram tudo: “Foi uma emoção indescritível. Ali estava eu trocando fralda, ensinado a falar, dando mamadeiras. Um receio de ser muito para eu dar conta, aquele receio na adaptação. Não podemos romantizar o processo nem pular etapas. No início teve a famosa lua de mel, tudo era lindo, calmo. Mas com uns meses os testes começaram. Os testes mais intensos, foram justamente quando começaram a me chamar de mãe, a aceitar a família. É muito trauma para crianças tão pequenas. Quando olho para trás, não sei como tive força para não desistir. Foi uma rede de apoio grande para tudo dar certo”.
Atualmente Alexandra tem 6 anos e Ana Larissa 3. Passadas as fases de adaptação, Tatiana reafirma que a maternidade por meio da adoção é uma das coisas mais lindas, mas ressalta também que o ato requer preparo: “É algo inexplicável, pois é um amor construído e fortalecido diariamente. Não pule os processos, estude muito, tenha apoio psicológico e dos grupos de adoção. A adaptação não é fácil, e para isso, precisamos ter ferramentas reais para enfrentar. Mais importante, não romantizar o processo. É lindo, é mágico, sim, e muito, mas precisamos ter certeza absoluta do que se quer e de tudo que pode acontecer”.
9ª Semana Estadual da Adoção tem como tema “O amor diz”
Até o dia 05 de junho, em todo o estado, acontece uma programação com eventos, palestras, presenciais e virtuais, rodas de conversas e abordagens sobre a adoção, como uma forma de orientar e ampliar os conhecimentos a respeito da temática, visando a desmistificação de alguns parâmetros da adoção. A iniciativa é do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), em conjunto com a Coordenadoria da Infância e da Juventude do TJRN.
Para José Dantas, Juiz da 1ª Vara da Infância e da Juventude e Coordenador Estadual da Justiça da Infância e da Juventude do TJRN, as campanhas e cursos sobre a adoção tem ajudado a mudar o perfil traçado pelos pretendentes à adoção, mas o perfil mais desejado ainda é de crianças recém-nascidas, do sexo feminino e de cor branca. O juiz pontua que esse é um desafio que precisa ser enfrentdo por meio de conscientização e informação: “As adoções tardias (crianças mais velhas), inter-racial, de grupos de irmãos e com deficiências ainda são desafios a serem enfrentados. As campanhas servem para quebrar mitos e expor a verdade. A adoção será sempre um ato de amor. Dizer sim a uma criança é proporcionar-lhe a felicidade de ser criada e educada no seio de uma família”.
Segundo informações da Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude (CEIJ/TJRN), desde a implantação do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) em 2019 até o presente momento, foram adotadas 155 crianças e adolescentes no RN.

De acordo com a entidade, não existe uma média de espera específica, mas cada processo de adoção é único e vai depender do tipo de perfil cadastrado pelos pretendentes. Por exemplo, se o desejo for um bebê ou criança até 3 anos, a probabilidade da demora de passar mais tempo na fila aumenta, mas se o perfil for por uma criança maior, com grupo de irmãos ou com doença detectada, o processo da adoção poderá ser resolvido em poucos meses.
Atualmente, existem 30 crianças disponíveis para adoção no RN, e em processo de adoção constam 44 registros no SNA. Ainda segundo dados do Sistema Nacional, existem 396 pretendentes disponíveis e habilitados para adoção no estado. Ou seja, existem mais interessados do que crianças disponíveis: “Quem está na fila é porque deseja filhos mais novos. Temos crianças e adolescentes aptos à adoção, porém não atendem o desejo de quem está na fila. Quem prefere crianças recém-nascidas vai esperar mais tempo na fila”, destaca o juiz José Dantas reforçando que por aqui existe uma preferência por crianças menores (até 6 anos) e sem grupos de irmãos. As crianças e adolescentes que são “deixadas de lado”, estão no grupo de adoções necessárias (crianças maiores, com deficiência ou doença detectada, grupos de irmãos, cor preta).
O panorama é o seguinte: até 02 anos, 109 pretendentes; até 4 anos, 133 pretendentes; até 6 anos, 116 pretendentes; até 10 anos, 6 pretendentes; até 12 anos, 3 pretendentes; até 14 anos, 2 pretendentes; de 15 a 18 anos, nenhum pretendente.
Apadrinhamento afetivo de crianças e adolescentes
A Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte instituiu o Projeto de Apadrinhamento que dispõe do apadrinhamento afetivo, profissional e provedor e é executado pelo Projeto Acalanto Natal.
Segundo Mireille Silvino, mãe por adoção, advogada, e diretora financeira do Projeto Acalanto Natal, o apadrinhamento é uma forma de garantia de direito certo para criança e adolescente que está num perfil que não é procurado para adoção tradicional, ou seja, crianças maiores de 8 anos e adolescentes: “Esse perfil tem o maior número de crianças disponíveis porque essas crianças já estão com poder familiar destituído, ou seja, já não tem vínculo com a família biológica nem com a família extensa, mas mesmo assim não existem famílias cadastradas que queiram adotá-las. Então, como uma forma de garantir os direitos dessa criança, desse adolescente, o direito à convivência familiar e comunitária, foi instituído o projeto padrinhos. O processo de apadrinhamento tramita de forma judicial”.
O Projeto Acalanto Natal, parceiro do TJRN nesta ação, é um Grupo de Apoio à Adoção de referência nacional que atua há mais de 26 anos atendendo às famílias adotantes, os pretendentes, às crianças e adolescentes do Estado do RN, ajudando a outros grupos de apoio à adoção, prestando assistência jurídica, social e de educação para expandir a cultura da adoção: “Trabalhamos para garantir o direito de crianças e adolescentes a terem uma família. No setor social fazemos atendimentos psicológicos para os pretendentes e/ou filhos, de forma gratuita, através dos nossos voluntários e em parceria com as faculdades de psicologia”. Para mais informações de como apadrinhar crianças e adolescente ou até mesmo de ser voluntário do projeto, o contato é feito por meio do telefone

