O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste domingo (22), ao fazer um balanço da visita de Estado à Índia, que o Brasil vive um momento de fortalecimento internacional e precisa continuar apresentando ao mundo suas potencialidades econômicas. A declaração foi dada em entrevista coletiva antes do embarque para a Coreia do Sul, em Nova Délhi.
“É importante mostrar para o mundo o momento que vive o Brasil. Em apenas três anos e dois meses, nós fizemos mais de 520 novos mercados de produtos brasileiros. É mais do que tudo que a gente já tinha alcançado em muito tempo”, disse o presidente.
Lula reforçou que a política externa brasileira é guiada por interesses comerciais e não por alinhamentos ideológicos. “Nós não temos preferência comercial. O Brasil tem interesses comerciais. E o faremos com quem quiser fazer, desde que seja uma política de ganha-ganha”, afirmou.
Relação com os Estados Unidos
O presidente também comentou a intenção de dialogar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo Lula, a pauta vai além de minerais críticos e deve tratar da relação bilateral como um todo.
“A pauta que eu quero conversar com o presidente norte-americano é muito mais ampla do que minerais críticos. Nós temos uma relação diplomática de 201 anos. É uma relação muito sólida. O que eu quero conversar com o Trump é a relação entre o Brasil e os Estados Unidos”, declarou.
Lula afirmou esperar que o encontro contribua para restabelecer uma relação “altamente civilizada e respeitosa” entre os dois países. “Nós queremos ter relações iguais com todos os países. Se isso for possível, eu acho que tudo voltará à normalidade”, disse.
Sobre a recente derrubada de tarifas impostas pelos Estados Unidos, o presidente avaliou que a medida trouxe alívio a países que enfrentavam taxas mais elevadas. “Agora para todo mundo vai ser 15%”, afirmou. Ele acrescentou que eventuais tarifas sobre produtos brasileiros podem gerar inflação nos próprios Estados Unidos. “Se taxar alguns produtos nossos vai causar inflação nos Estados Unidos e vai ser prejudicial ao povo americano. Ele já sabe disso.”
Índia e metas comerciais
Durante a visita, Lula reuniu-se com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, com quem discutiu a ampliação do comércio bilateral. Segundo o presidente brasileiro, Modi propôs a meta de US$ 20 bilhões até 2030. Lula afirmou que o potencial pode levar o fluxo a US$ 30 bilhões no mesmo período.
Em 2025, o comércio entre Brasil e Índia superou US$ 15 bilhões pela primeira vez na história, crescimento de 25% em relação a 2024.
O presidente destacou que evitou temas polêmicos na reunião. “Eu não vim aqui para discutir divergência, eu vim aqui para discutir a confluência”, disse, acrescentando que empresários indianos demonstraram otimismo em relação a investimentos no Brasil.
Lula lembrou que, há 21 anos, celebrou a marca de US$ 100 bilhões em comércio exterior brasileiro. Atualmente, o volume está em cerca de US$ 649 bilhões. “Eu espero que, dentro de algum tempo, a gente possa comemorar US$ 1 trilhão de comércio exterior”, afirmou.
Reformulação da ONU e Brics
O presidente também defendeu mudanças na estrutura da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no Conselho de Segurança. Para Lula, é preciso ampliar a representatividade, com a inclusão de países da África e da América Latina, além de nações como Índia, Brasil, Alemanha, México, Nigéria e Egito.
“Para a ONU voltar a ter eficácia, é preciso fortalecer a instituição se a gente quer que prevaleça uma entidade vital para a manutenção da paz e da harmonia no mundo”, afirmou.
Sobre o BRICS, o presidente destacou que o grupo reúne quase metade da população mundial e tem potencial para contribuir com o equilíbrio geopolítico global. “Criamos um banco, que é o banco do Brics. Tudo nosso é muito novo ainda. O que nós queremos é fortalecer um grupo”, disse.
Acordos e investimentos
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, informou que foram assinados 11 acordos governamentais durante a visita, com prioridade para áreas como defesa, aviação civil e militar, comércio, investimentos, saúde, indústria farmacêutica, ciência, tecnologia digital, energia, minerais críticos, cooperação espacial, educação e cultura.
Entre os instrumentos firmados estão a declaração que estabelece a parceria digital para o futuro e acordos sobre minerais críticos, propriedade intelectual, serviços postais, empreendedorismo e certificados de origem. Também foram assinados três instrumentos público-privados envolvendo universidades e fundações.
O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, classificou a missão como a mais produtiva do atual governo. Segundo ele, foi inaugurado um escritório da agência em Nova Délhi e produtos brasileiros passaram a ser comercializados na maior rede de supermercados da capital indiana e, em seguida, em Mumbai, totalizando cerca de 40 lojas.
Viana também anunciou a expectativa de criação de um voo direto entre Nova Délhi e o Brasil, medida que, segundo ele, deve ampliar ainda mais os fluxos comerciais e turísticos entre os dois países.

