A valorização da cultura potiguar, a preservação de técnicas tradicionais e a inovação marcaram a participação da Loja Colaborativa da Economia Criativa na Festa do Boi 2026. Integrado à Agência Sebrae, o espaço reuniu produções artesanais de diferentes regiões do Rio Grande do Norte e, segundo o curador Chrystian de Saboya, alcançou recordes de vendas nesta edição, consolidando-se como uma vitrine para o talento e a criatividade dos artistas locais.
Em entrevista ao Diário do RN, Chrystian destacou que o processo de curadoria foi construído a partir do respeito à identidade de cada artesão, sem estabelecer critérios rígidos de seleção. A proposta buscou valorizar as particularidades dos trabalhos e estimular novas possibilidades de criação, tendo como inspiração o universo rural e a relação dos potiguares com a terra.
“A curadoria é feita com muito respeito ao trabalho de cada artesão. Nós extraímos dos artistas aquilo que eles têm de melhor, dentro da realidade de cada um. São artesãos muito talentosos, sempre de braços abertos para o novo. Não existe critério, regra ou maioria. O que existe é um prazer imenso de abraçar a arte de cada um!”, afirmou.
Segundo o curador, os participantes foram incentivados a desenvolver peças que dialogassem com a temática da Festa do Boi, incorporando elementos ligados à agropecuária, à natureza e às tradições do interior do estado.
“Nós orientamos novas técnicas, possibilidades outras, e pedimos, para esse evento, especificamente, que todos pensassem na agropecuária, na natureza, no amor à terra”, explicou.
Tradição e inovação se encontram na produção artesanal
Um dos principais desafios da curadoria foi conciliar os conhecimentos transmitidos entre gerações com novas tendências da economia criativa. Para Chrystian, esse equilíbrio acontece naturalmente quando os artesãos encontram espaço para experimentar, sem abandonar suas origens.
“Nós respeitamos muito o trabalho de cada artesão. Mas abrimos os braços e os horizontes para novas perspectivas. E todos estão sempre dispostos a abraçar o novo. É muito fácil trabalhar com quem coloca a arte ao lado do coração”, destacou.
A relação histórica da Festa do Boi com o campo também influenciou diretamente a construção estética da loja. Elementos presentes no cotidiano rural, como fazendas, currais, galinheiros, sítios e animais, serviram de inspiração para as produções apresentadas ao público.
“Nós procuramos abranger tudo isso através da natureza, dos currais, dos galinheiros, dos chiqueiros, das fazendas, dos sítios, da nossa ancestralidade também. Foi tudo pensado com muita poesia para esse universo”, explicou.
A diversidade de materiais, técnicas e referências culturais resultou em uma loja marcada pela variedade de cores, texturas e formas. Para o curador, mais do que destacar uma técnica específica, o principal diferencial da produção potiguar está no envolvimento dos artesãos com o próprio trabalho.
“O que me chama atenção é o amor pelo artesanato — e essas pessoas têm um amor que nos comove verdadeiramente. E isso deixou a loja muito mais colorida, mais viva!”, afirmou.
Chrystian também ressaltou a atuação do Sebrae no acompanhamento e na valorização dos profissionais do setor.
“O Sebrae tem um trabalho muito lindo com os artesãos. É um trabalho de entrega, de respeito, de muita luz sobre o trabalho de cada um”, acrescentou.
Informatização abre novas possibilidades de comercialização
Entre as novidades da edição de 2026 está a informatização da Loja Colaborativa, iniciativa voltada à modernização dos processos de comercialização e ao repasse dos valores das vendas aos artesãos.
A mudança representa um avanço na organização das atividades comerciais do espaço e pode contribuir para a profissionalização dos pequenos negócios ligados à economia criativa.
Para Chrystian, a incorporação de ferramentas digitais deve caminhar ao lado da preservação das histórias e dos valores culturais presentes em cada peça.
“O novo sempre vem, e se vier junto com o afeto, a história de cada artesão, isso deixa os caminhos muito mais profícuos. Organizados também virtualmente, os artesãos ganham os céus e outras paisagens do nosso país”, afirmou.
O curador destacou ainda que o processo é desenvolvido em parceria com o Sebrae, responsável por apoiar os artesãos e estimular novas oportunidades de mercado.
A informatização também representa uma possibilidade de ampliar a visibilidade dos produtos para além dos eventos presenciais, aproximando os criadores de consumidores de outras regiões.
Loja registra recordes de vendas durante a Festa do Boi
Ao avaliar os resultados da participação do espaço na Festa do Boi 2026, Chrystian de Saboya afirmou que a Loja Colaborativa superou marcas anteriores de comercialização. Embora não tenha apresentado valores ou percentuais, o curador destacou que os recordes refletem a diversidade das peças e a receptividade do público.
“Foram batidos recordes de venda e eu tenho certeza que isso também é por conta do colorido da loja, do exagero de beleza e de produtos que encantam a todos, agradando os gostos mais diversos, mas sempre pautado na beleza do artesanato do Rio Grande do Norte e no bom gosto”, declarou.
Segundo ele, a presença de artesãos de diferentes regiões e a possibilidade de interação direta com os consumidores contribuíram para tornar o espaço mais atrativo.
A proposta também envolve a transmissão de conhecimentos, com mestres artesãos apresentando suas técnicas e permitindo que visitantes conheçam os processos de produção.
“Essa mistura de arte, de várias regiões, os mestres ensinando aqueles que têm curiosidade nas suas artes, aprendendo, manuseando… Tudo isso encanta muito a todos nós e, por consequência, os clientes também”, explicou.
Para o curador, a experiência demonstra a importância de espaços coletivos de exposição e comercialização para fortalecer o artesanato como atividade econômica, sem perder sua dimensão cultural.
Artesanato potiguar transforma materiais simples em identidade e valor
Ao refletir sobre o potencial da economia criativa do Rio Grande do Norte, Chrystian destacou a capacidade dos artesãos de transformar matérias-primas simples, muitas vezes retiradas da natureza ou reaproveitadas, em produtos com identidade cultural.
“Revela um estado rico e mãos que fazem do bruto a beleza da vida. É um pedaço de madeira que sai voando, que vira santo, prece. É a palha colhida no meio do mato que se transforma em bolsas, são bolsas feitas com materiais que iriam para o lixo”, descreveu.
A produção artesanal potiguar reúne trabalhos em madeira, palha, barro, tecido e materiais reciclados, refletindo conhecimentos e referências culturais construídos ao longo de gerações.
Para Chrystian, a riqueza desses trabalhos está justamente na capacidade de contar histórias e expressar a identidade dos territórios de onde surgem.
“É o barro batido e transformado em poesia, as costuras que vão alinhavando histórias de amor, a pintura que encanta através de traços e laços com as raízes do Rio Grande”, completou.
Com o encerramento da Festa do Boi 2026, a avaliação do curador é de que a Loja Colaborativa reafirma o potencial dos artesãos potiguares para conquistar novos consumidores e ampliar sua presença no mercado.
A combinação entre tradição, criatividade e modernização dos processos comerciais aponta caminhos para fortalecer a economia criativa como fonte de renda e valorização cultural no estado. Para Chrystian, entretanto, o principal patrimônio continua sendo o talento dos artesãos e a relação afetiva que estabelecem com suas produções.
“São produtos, de verdade, muito lindos. Todos!”, concluiu.

