VICENTE SANTEIRO: ENTRE A FÉ POPULAR E A MEMÓRIA NORDESTINA
ORIGEM, FORMAÇÃO E PRIMEIROS TRAÇOS
Tiago Vicente Queiroz de Medeiros, nasceu em Natal em 1979, e criado no bairro do Alecrim.
Filho de Luiz Gustavo Bezerra de Medeiros e Maria do Socorro Queiroz Fontes de Biajione. De nome artístico Vicente Santeiro, desenvolveu desde cedo uma relação intuitiva com o desenho, preenchendo cadernos escolares com figuras e símbolos que mais tarde se tornariam parte de sua identidade visual. Sua formação é essencialmente autodidata, construída pela observação, pela prática e por influências pontuais do meio artístico local. A carreira profissional ganha impulso no início dos anos 2000, consolidando-se com exposições e reconhecimento institucional. Nos depoimentos do colecionador e crítico de arte Antônio Marques, o artista surge como um “organizador de silêncios visuais”, alguém que transforma contemplação em estrutura pictórica.
A ESTRUTURA VISUAL: SIMETRIA, HIERATISMO E PLENITUDE SIMBÓLICA

Uma das marcas mais evidentes de sua pintura é a simetria bilateral rigorosa. A figura central domina o campo visual enquanto o entorno se preenche com signos regionais: cajus, pássaros, barcos, palmeiras. Segundo o professor Márcio Dantas, essa ocupação integral do espaço revela uma estratégia estética que evita o vazio e constrói harmonia visual, aproximando a obra de tradições iconográficas sacras. As figuras apresentam uma frontalidade hierática que remete à iconografia cristã e bizantina, mas o objetivo não é devocional: trata-se de uma espiritualidade estética.
SANTOS, ORIXÁS E A CONVIVÊNCIA SIMBÓLICA DAS CRENÇAS. SANTEIRO ARTICULA SANTOS CATÓLICOS, ENTIDADES AFRO-BRASILEIRAS E SÍMBOLOS POPULARES EM UM TERRITÓRIO VISUAL DE CONVIVÊNCIA CULTURAL.

Exposições recentes evidenciam esse diálogo entre religiosidade e brasilidade popular, reunindo personagens como Nossa Senhora, São Jorge e Cristo em composições de forte densidade simbólica. São Cosme e Damião aparecem com frequência, associados à infância e à proteção espiritual, revelando o interesse do artista pelas formas simbólicas mais do que pelos dogmas religiosos.
A POÉTICA DA COR
Mesmo trabalhando na bidimensionalidade da tela, Vicente cria uma sensação escultórica por meio de sombras, recortes cromáticos e planos bem definidos. O uso recorrente do azul em representações marianas ou de Iemanjá produz atmosferas contemplativas e espiritualizadas, sugerindo serenidade e transcendência, leitura também observada por Márcio Dantas em sua análise estética. Os fundos paisagísticos evocam um Nordeste simbólico: casas simples, colinas, barcos e faróis que pertencem tanto à memória quanto à imaginação.
BRASILIDADE POPULAR E PROJEÇÃO CONTEMPORÂNEA
A partir de 2016, o artista intensificou o diálogo com elementos da cultura popular brasileira, explorando um mosaico visual de brasilidade e evocação à contemporaneidade. Sua arte ultrapassou os circuitos expositivos e chegou ao design e à cultura de massa, como na colaboração com a coleção Havaianas “Quebrada Cria”, inspirada nas periferias natalenses e difundida internacionalmente. Essa expansão confirma a capacidade de sua obra de dialogar com públicos diversos sem perder densidade simbólica.
A ARTE COMO LUGAR DE QUIETUDE
Vicente Santeiro constrói imagens que pedem pausa. Não são pinturas para o consumo apressado, mas para a contemplação. Sua obra demonstra que o símbolo pode sobreviver fora do culto, que o sagrado pode existir fora do templo e que a arte ainda é capaz de oferecer silêncio interior em um mundo saturado de ruído. Contemplar suas telas é experimentar suspensão, recolhimento e uma rara sensação de permanência.
Fontes
DANTAS, Márcio. Vicente Santeiro: releitura e permanência das imagens sacras.
MARQUES, Antônio. Depoimentos em áudio sobre a obra de Vicente Santeiro, 2026.
Novo Notícias. Trajetória e reconhecimento.
Tribuna do Norte. Exposição “Perfil” e nova fase estética do artista.
Papo Cultura. Dados biográficos e início artístico.

