BARRO QUE ACENDE LUZ: ANA ANTUNES, CERÂMICA EM ESTADO DE ESCULTURA
UMA GAÚCHA, UM TERRITÓRIO
Há artistas que atravessam geografias, outras se deixam atravessar por elas. Ana Antunes pertence a esse segundo grupo. Nascida em 21/08/1952, em Porto Alegre (RS), ela chega ao Rio Grande do Norte ainda jovem e encontra aqui mais que um lugar de residência: encontra matéria, tempo e permanência. A argila potiguar passa a ser linguagem e destino. O barro deixa de ser suporte e se torna território sensível, memória tátil, forma de pertencimento.


A OBRA COMO PESQUISA (E A PESQUISA COMO OBRA)
A trajetória de Ana Antunes é marcada por método e persistência. Inicia sua formação em artes plásticas no Sul e conclui a Licenciatura em Educação Artística (Artes Plásticas) pela UFRN em 1988, consolidando uma relação definitiva com o estado. Desde então, e já são mais de 30 anos de produção contínua, a cerâmica é tratada como campo de investigação. Testar terras, observar reações químicas, compreender o comportamento do fogo: tudo faz parte do gesto criador. Em sua obra, técnica e poética não se separam; uma sustenta a outra.
Rafaella Leite Fernandes, em seu trabalho de formação do Curso de Licenciatura em Artes Visuais da UFRN, pesquisou de forma primorosa sobre a vida e obra de Ana Antunes, trabalho que recomendo para pesquisa e leitura aos interessados. No capítulo 1, Rafaella Leite escreve pontos importantes da vida da artista, onde Ana em seu blog afirma que desenha desde os quatro anos de idade, sempre retratando a vida humana. Iniciou-se em formação no ensino superior nas artes, ao cursar o bacharelado em Artes Plásticas, na Escola de Belas Artes da UFRGS, em 1972.
Escreve ainda Rafaella Leite: “… buscando desenvolver sua tridimensionalidade em um material plástico mais macio e moldável, Ana optou pela argila. Desde então, devotou-se à cerâmica em estudo e produção, Ana retoma seu contato com a cerâmica em 1995 …”. E continua: “… em 1995, Antunes realizou sua primeira exposição individual, no Solar Bela Vista, em dezembro, com ampla divulgação nos jornais impressos…”.
FIGURA HUMANA, CORTES E A “METÁFORA DOS QUATRO ELEMENTOS”
Ao longo das décadas de 1990, 2000 e 2010, sua escultura se afirma por uma linguagem própria.
A figura humana surge como vestígio, não como retrato. Vazios, fendas e cortes atravessam o corpo cerâmico, permitindo que o ar complete a forma. Terra e água moldam; o fogo, em queimas de alta temperatura, transforma; o ar finaliza. A cerâmica de Ana Antunes constrói, assim, uma metáfora silenciosa dos quatro elementos, um diálogo entre matéria e espírito que se renova a cada forno aberto.
O ATELIÊ COMO ESCOLA: TÉCNICA COMPARTILHADA
Desde os anos 2000, Ana Antunes também se firmava como formadora. Seu ateliê funcionava como espaço de transmissão de saberes: turmas pequenas, atenção individual, respeito ao tempo do barro. Ensinava-se a preparar a massa, a compreender o ciclo da peça, a lidar com o risco da queima. Ao longo dessas décadas, muitos ceramistas do RN passaram por essa experiência.
Ensinar, para ela, não é repetir fórmulas, mas formar olhares e mãos conscientes.
POR QUE OLHAR PARA ANA ANTUNES AGORA
Em 2025, quando sua trajetória já ultrapassa meio século de vida e mais de três décadas dedicadas à cerâmica, a obra de Ana Antunes se impõe como referência. Num tempo de aceleração e descarte, seu trabalho reafirma a importância da espera, do método e da permanência. Olhar para Ana hoje é reconhecer que parte significativa da escultura cerâmica do Rio Grande do Norte foi escrita, e segue sendo, em barro, fogo e tempo longo.

