PINTAR COMO QUEM GUARDA O MUNDO
CARLOS JOSÉ: PINTAR COMO QUEM GUARDA O MUNDO
Carlos José Marques nasceu em Bom Jesus, no Rio Grande do Norte, em 1947, em uma família do interior cuja vida era atravessada pelo trabalho, pela religiosidade e pela convivência comunitária. Essa origem não aparece em sua obra como simples referência biográfica, mas como destino estético. Em Carlos José, o Nordeste não é cenário: é estrutura. Sua pintura não observa o mundo de fora; ela emerge de dentro dele, como memória que se recusa a desaparecer.
Filho de Antonio Marques de Carvalho e Maria de Lourdes Marques e irmão do curador, colecionador, e crítico de arte Antonio Marques.
AUTODIDATISMO: RESISTÊNCIA SILENCIOSA
Iniciado na pintura por volta de 1963, Carlos José escolheu, ou foi escolhido por um caminho autodidata. Em um tempo em que a legitimação artística passava cada vez mais pela academia, ele construiu sua linguagem à margem, afirmando a experiência como método. Já em 1964, expunha seus trabalhos, revelando uma maturidade incomum. Seu autodidatismo não é carência, mas gesto político: a recusa em separar arte e vida.
EXPOR É AFIRMAR PRESENÇA
A trajetória de Carlos José se consolida cedo. Sua exposição na Galeria de Artes de Natal (1964) marca o início de uma presença pública consistente. Em 1966, ao expor no Centro Norte-Rio-Grandense, na Guanabara, o artista leva consigo um Nordeste que não pede permissão. Dois anos depois, no Instituto Histórico e Geográfico do RN, sua obra passa a ocupar também o espaço da memória institucional. Décadas mais tarde, exposições como “Carlos José e Caros Amigos”, na Galeria Newton Navarro, confirmam a permanência de uma obra que não se esgota no tempo.
PRÊMIOS NÃO DOMESTICAM A OBRA
Na I Feira de Artes Plásticas do Rio Grande do Norte, em 1966, Carlos José recebe o prêmio geral, além de distinções em pintura e desenho. O reconhecimento vem cedo, mas não domestica sua produção. Ao contrário de muitos artistas que suavizam a linguagem para atender expectativas, Carlos José mantém o compromisso com o popular, com o excesso de cor, com a narrativa coletiva. Seu trabalho não se adapta, insiste.
O POPULAR COMO ESCOLHA ESTÉTICA

Rotulada muitas vezes como naïf, sua pintura escapa da ingenuidade. O que há é rigor compositivo, ritmo visual e consciência simbólica. Bandas de música, festas religiosas, personagens anônimos e cenas corais não são ornamento: são afirmação cultural. Como observou Iaperi Araújo, no livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, de Roberto, Pontual, pag,: 109, sua arte é universal exatamente porque se ancora no regional. O popular, em Carlos José, não é tema, é linguagem.
PINTAR PARA NÃO PERDER
Carlos José pinta como quem sabe que a memória, se não for cuidada, desaparece. Sua primeira exposição aconteceu no início da década de 1960, na Galeria do Povo, iniciativa cultural criada durante a gestão do prefeito Djalma Maranhão. Com o golpe civil-militar de 1964, em pleno advento da Ditadura Militar, a galeria foi arbitrariamente derrubada, e o próprio Djalma Maranhão acabou cassado e forçado ao exílio, onde viria a falecer anos depois.
Influenciado pelo Movimento de Cultura Popular – Pé no Chão Também se Aprende a Ler, idealizado a partir do pensamento pedagógico revolucionário de Paulo Freire, o artista integrou um momento decisivo da história cultural e educacional potiguar. Atuou ao lado de figuras fundamentais como Iaperi Araújo, Iaponi Araújo e Ziltamir Soares de Maria, conhecido como Manxa, contribuindo para uma produção artística comprometida com o povo, a educação e a transformação social.
Além dessas experiências inaugurais, participou de diversas outras exposições de relevância ao longo de sua trajetória, consolidando um percurso marcado pelo engajamento cultural e pela resistência estética em tempos adversos.
Dados Bibliográficos: Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Roberto Pontual – 1969 e informações de Iaperi Araújo e do seu irmão Antonio Marques.

