Hoje é noite de São João e os festejos juninos movimentam todo o RN, mas para além das quadrilhas e eventos musicais, o milho é a grande estrela do período e ingrediente principal de muitos dos pratos que são tradição nesta época. Em Natal, a Feira do Milho, em Lagoa Nova, é um dos principais pontos de venda. Mas, às vésperas da data, comerciantes relatam que o movimento este ano está bem menor que em anos anteriores. Segundo eles, o motivo é a mudança da localização que saiu do Centro de Agricultura Familiar (Cecafes), na Avenida Jaguarari, para o Centro Administrativo, às margens da Br. 101
Selma Ribeiro, trabalha com o segmento de milho desde os 7 anos e junto ao marido, funcionários e familiares, ela administra a barraca do Antônio do Milho, em comparação ao ano passado, a pedagoga reflete sobre este ano: “As vendas estão péssimas, o local não é apropriado e não houve divulgações e propagandas, muitas pessoas não sabem onde é, a divulgação é muito pouca e tudo é restrito. Ficou esse espaço fechado e sem fácil acesso para os clientes, ao invés de festas juninas, os governantes deveriam ter investido nas famílias agricultoras para ganhar o pão de cada dia”.
Segundo ela, os gastos e mercadorias não são baratos e a nova localização está dificultando as vendas: “A mercadoria vem de longe e o custo não é barato, cada barraca dessas a gente paga R$ 1.200, temos trabalhadores, despesas com café, almoço, lanche, janta e muito mais. Estamos pedindo a Deus que as vendas melhorem”.
Procurada pelo Diário do RN, a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura Familiar (Sedraf) informou que a Feira do Milho foi realocada para o Centro Administrativo, em área próxima à Arena das Dunas, justamente por conta da localização, que é uma área de convergência para todas as zonas da área metropolitana. Além disso, a secretaria cita o espaço: “O evento demanda uma logística de carga e descarga e o antigo local não comporta. Além destes fatos, a Feira tomava espaço do estacionamento do Mercado da Agricultura Familiar, que está bastante movimentado desde que foi reestruturado graças ao investimento do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, em parceria com o SEBRAE-RN”.
Com relação aos valores, os preços da mão de milho (50 unidades) variam de R$ 30, R$ 35 a R$ 40 reais e alguns comerciantes acreditam que até julho, ele poderá aumentar para R$ 50 a mão.
O valor está bem mais alto que no ano passado, mas como tradição é tradição, a auxiliar de cozinha, Maria Alice, veio mais uma vez garantir a festa na Feira do Milho e conta que avalia bastante os preços e também a qualidade do produto que faz toda a diferença nos preparos: “Já é uma tradição que a gente faz todo ano lá em casa, mas está salgado esse ano, os preços das espigas também afetam a qualidade, nas barracas a gente tem que ver com calma o que cabe no bolso, mas eu já comprei por preços menores”.
Tradição do milho
O protagonista dos festejos de São João faz parte de várias receitas típicas como pamonha, canjica, cuscuz, pipoca, dentre outros inúmeros pratos. A tradição no preparo reúne muitas famílias em torno do fogão, mas também tem quem põe a mão na massa para faturar.
Sheila Bezerra, 37, trabalha com a venda de milho há 21 anos. Além das espigas comercializadas a R$ 40 “a mão”, como o termo popular se refere a 50 espigas, ela produz comidas regionais com a família, sendo mais uma opção para o consumidor.
No “Ponto do Milho” tem milho cozido ou assado, a partir de R$ 3, canjica a partir de R$ 5, pamonha R$ 7, fatias de bolo preto e de milho, arroz-doce e mungunzá a R$ 5 reais. Os tempos exigiram adaptações como aderir ao formato delivery. A família também faz entregas a partir de mil espigas, em torno de 600 reais e os 15 funcionários se dividem entre as funções na cozinha e nas vendas.
Mas mesmo com todo esforço que envolve tantas pessoas, Sheila conta que, no ano passado, o faturamento no São João girou em torno de 25 mil reais, mas esse ano as coisas estão muito difíceis: “Não chegou nem a pagar os milhos, quem dirá o resto. A venda de comidas típicas também está muito fraca, nunca vi igual”

