É possível dizer que o desfile da escola de samba em homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva é propaganda antecipada? Já li e ouvi juristas dizendo que sim, e juristas dizendo que não. Como não entendo de leis e acho o Direito, no Brasil, cada vez mais avacalhado, não opino por aí – e mais não falo/escrevo para não responder outro(s) processo(s).
Se juridicamente há discordância, moralmente, ah, moralmente a coisa cheira a escândalo com plumas, lantejoulas e o velho cheiro de hipocrisia que atravessa a história política brasileira como lança-perfume barato, desses que anunciam a presença antes mesmo de o sujeito apertar o botão.
O desfile entra na avenida com a inocência de uma debutante de cinquenta anos. “Não é propaganda”, juram os organizadores, com a mão no peito e a outra contando patrocínios, incluindo os oriundos dos cofres públicos É “homenagem cultural”, “manifestação artística”, “liberdade de expressão”. Tudo muito bonito, tudo muito constitucional, o diabo, porém, como sempre, mora na comissão de frente. A pergunta não é se a lei permite, mas se a consciência suporta.
Aqui entra aquela velha senhora chamada filosofia moral, que quase todos os nossos agrupamentos políticos costumam invocar apenas quando lhes convém, geralmente para acusar adversários, nunca para se olhar no espelho. Immanuel Kant, por exemplo, aquele alemão setecentista que se vivesse hoje seria pouco afeito a samba-enredo, falou do imperativo categórico: aja apenas segundo a máxima que possas querer que se torne lei universal.
Traduzindo para o português da Sapucaí: se todo governante em pré-campanha pudesse ser celebrado em carros alegóricos, com dinheiro público ou para-público, teríamos eleições resolvidas no batuque, e não nas urnas. É isso que os devotos de Lula querem universalizar?
Duvido. Preferem a exceção, desde que seja a deles.
Aristóteles, mais antigo e sábio como Kant (talvez até mais), falava da virtude como hábito e da justa medida. A virtude não está no excesso nem na falta, mas no meio. Onde está a justa medida quando um líder político vivo, ativo, elegível e candidato em potencial é exaltado como entidade mítica, quase um orixá político, diante das câmeras de televisão? Não é homenagem, é culto. E culto, quando envolve poder, costuma ser pornografia moral.
Os petistas, claro, reagem com o script de sempre. Dizem que a direita é hipócrita, que sempre houve política no carnaval, que a arte é livre. Tudo verdade. Mas nem toda verdade é desculpa.
Recorro a um dos pais da Sociologia: a convicção diz “Acredito, logo faço”. A responsabilidade, entretanto, pergunta: “E as consequências?”. Os lulistas adoram a primeira e desprezam a segunda. Convictos de sua própria superioridade moral, não se sentem obrigados a medir efeitos, assimetrias, vantagens indevidas. E é justamente aí que está a incoerência central, a ferida purulenta. O mesmo campo político que passou anos berrando contra “abuso de poder econômico”, “uso indevido dos meios de comunicação” e “manipulação simbólica” agora se faz de virgem ofendida quando alguém ousa sugerir que um desfile laudatório a Lula possa desequilibrar o jogo.
Um dos nossos pensadores um dia disse que o brasileiro não é hipócrita, é só coerente na hipocrisia. Lula, que construiu sua biografia denunciando elites, agora é celebrado com a pompa que só as elites costumavam ter. O operário virou busto; o sindicalista, alegoria; o companheiro, mito oficial. E o PT aplaude, emocionado, como se não tivesse passado décadas dizendo que personalismo era coisa da direita.
Mesmo que a Justiça Eleitoral cochile, a moral não dorme.
Quando tudo vira normal, quando toda esperteza é justificada como astúcia histórica, perde-se a capacidade de distinguir o aceitável do indecente. O desfile pode ser legal, mas fede. E quando algo fede na política, não adianta jogar confete.
Os códigos de leis talvez digam que não é propaganda antecipada, a ética – uma velha chata que insiste em atrapalhar a festa – diz que sim, ou ao menos diz que há algo profundamente errado, impondo o silêncio constrangedor a quem sabe que ganhou no grito, no brilho e na esperteza.
Lula sorriu do alto do carro alegórico ou do camarote especial ou da avenida. A moral, coitada, ficou perdida no barracão.
