O Brasil é um país que marcha, com passo firme, rumo ao abismo – e ainda se orgulha da vista.
Há algo de profundamente cômico, e mesmo trágico, na forma como “gente bem-pensante” – essa entidade que só frequenta livrarias e bebe vinhos conversando miolo de pote – decidiu canonizar Alexandre de Moraes. O careca virou santo. Um São Jorge togado, montado não num cavalo, mas numa jurisprudência de conveniência.
Mas vamos com calma. Alexandre Moraes não é deus. E, com todo respeito e que me perdoem os beatos, também não é nem um pouco democrático. É só um homem. E homens, mesmo os de toga, têm olheiras, vaidades e, por vezes, um quê de Torquemada.
A fé cega no ministro é sintoma de uma república desesperada por um herói de ocasião – como quem espera o Messias na estação errada, na hora errada, com a mala errada.
Alexandre, o Grande (segundo sua torcida) ou Cabeça de Ovo (como dizem os seus detratores) resolveu enfrentar o dragão da desinformação. Mas o fez com lança de chumbo. O inquérito das fake news é um desses fenômenos típicos do Brasil: começa como defesa da civilização e termina como tribunal de exceção. Moraes se equilibra entre o papel de juiz e o de censura ambulante. O problema? Quando se tenta salvar a democracia como quem doma um animal selvagem, o risco é acabar vestido com a pele da fera.
Do outro lado do picadeiro, claro, está Jair Bolsonaro – o bufão com vocação para déspota, incapaz de compreender a Constituição que jurou defender. Seu discurso sobre liberdade é como dar uma metralhadora a um desmiolado: só serve para destruir.
Pois bem, Bolsonaro queria salvar o Brasil… do próprio Brasil. Sua ideia de ordem era o caos com farda. Uma democracia de farda e porrete. Como um dia foi de baraço e cutelo.
Eis o teatro. Não são farinha do mesmo saco, mas são do mesmo moinho. De um lado, um populista com bafo de golpe. Do outro, um togado com sede de onipotência. Não são iguais, não são gêmeos. Mas são irmãos de espírito. Filhos do mesmo útero: o da política autoritária disfarçada de moralidade. Um vende peixe podre em nome do povo; o outro embala o mesmo peixe em papel de jornal de assessoria de imprensa.
A pergunta não é quem é o vilão, mas quem ainda acredita no mocinho.
Criticar Moraes virou, para alguns, heresia. Como se, ao apontar seus excessos, estivéssemos querendo o retorno do capitão-de-motociata. Mas é justamente o contrário. Só uma democracia muito doente escolhe entre dois tipos de autoritarismo como quem escolhe sabor de picolé.
A verdade é que Alexandre de Moraes não combateu o bolsonarismo com democracia. Combateu-o e combate com a mesma moeda: a concentração de poder, a paixão pelo monólogo, o gosto pela punição exemplar. No fundo, há um bolsonarista interior em cada inimigo do bolsonarismo. E o pior é que ele não grita, ele assina.
Enquanto isso, o povo – esse personagem que só aparece em discursos – assiste à tragédia como quem vê novela repetida. A democracia virou uma peça ruim, encenada por atores que decoraram apenas a parte dos aplausos. O Brasil está cansado. Mas, como toda plateia bovina, aplaude mesmo assim.
E agora, como cereja podre do bolo, já tem gente no Twitter (ou X, essa sigla de vilão de quadrinhos) comparando Alexandre de Moraes a Filinto Müller, o sinistro chefe de polícia do Estado Novo. Talvez seja exagero. Talvez não. O Brasil é mestre em transformar metáforas em fatos.
E assim seguimos. De um lado, o milico comediante. Do outro, o togado messiânico. No meio, a democracia – manca, míope e com hálito de cadáver.
