Maria do Socorro Vasques, ou apenas Socorro, como gosta de ser chamada, aos 89 anos, com unhas feitas em gel e um sorriso no rosto, vai além dos estereótipos do passado atrelados à terceira idade, pois é bastante ativa e executa diversas tarefas diárias.
Durante a visita do Diário do RN, ela revisitava memórias enquanto moldava empadinhas para o lanche da tarde e os quitutes pareciam saborosos, pois a família ainda em horário de almoço, já especulava sobre as massas assando no forno.
Com o cabelo bem arrumado, a vaidade é bem cultivada, ela diz que não quer ficar malcuidada por estar idosa, mas a proatividade é seu ponto forte: “Eu não gosto de ficar parada de jeito nenhum. Eu bordo, faço ponto-cruz, vagonite e costuro, eu até cozinho, só não cozinho mais porque as minhas filhas não deixam”.
Ela gosta de praia, adora ler romances, é religiosa, cuida de dois papagaios e três cachorros e às vezes toma um vinho. Socorro foge do modelo “bisavó” que não se apega à modernidade, ela carrega seu tablet para todos os cantos e faz da tecnologia sua aliada, pois no aparelho, Socorro pesquisa receitas, se conecta com a internet, faz leituras e amplia seus conhecimentos lendo informações na web.
Atenta também às tendências musicais, Socorro ressalta até quais são seus gêneros favoritos e qual habilidade irá entrar para sua gama de multifacetas e atribuições, bem-humorada, ela conta: “Não gosto daquelas músicas para sofrer, gosto de forró e funk, não sei dançar funk, mas ainda vou aprender”.
Nascida na praia de Pititinga, que anteriormente pertencia a Touros e agora pertence a Barra de Maxaranguape, Socorro teve familiaridade com a costura desde pequena através de sua avó que faleceu aos 84 anos e que a ensinou a fazer ponto-cruz e crochê, sendo uma das mulheres que a inspirou a não ficar parada, a sempre buscar uma atividade e permanecer fazendo constantes descobertas.

Socorro viu em suas experiências com entes queridos uma nova forma de enxergar a vida: “Eu sei o que foi que minha mãe sofreu quando teve depressão. Ela costurava, bordava, fazia crochê, mas depois da depressão ela só ficava deitada. Meu marido também teve começo de depressão e Parkinson, então ele só ficava deitado também. Por isso que eu não quero só ficar deitada como eles ficaram”.
A depressão foi uma doença que sempre afligiu sua mãe, e vê-la em cima de uma cama, indisposta e sem vontade para fazer nada, motivou Socorro a vivenciar cada resquício da melhor idade. Em seu tempo livre, um de seus momentos de lazer é um mergulho no universo literário, uma prática que ela mantém até hoje: “Eu gosto de ler. Gosto de ler romances, é muito bom. No meu tempo estudei até 5ª série e me casei com 16 anos, depois disso fui logo tendo filho, todo ano era um”, afirma bem-humorada.
Maria do Socorro é viúva há 10 anos, casou muito jovem, sofreu alguns abortos e dentre seus 10 filhos, 9 ainda estão vivos. Fez da costura que aprendeu com a avó, seu trabalho para ajudar na renda da família junto ao marido.

A idosa moderninha tinha medo de envelhecer como sua mãe, falecida aos 97 anos, quando ela vê um idoso doente ou bastante debilitado, seu primeiro pensamento, segundo ela, é “já pensou se fosse eu?”.
A neta, Andrea Lemos, ao ver sua avó com tamanha longevidade, se diz orgulhosa por ainda poder desfrutar da companhia dela, assim como seus filhos, Samuel e Vittória também podem aprender incontáveis lições de vida: “Hoje em dia ter a bisavó viva é uma benção, ela é lúcida e está bem, isso me deixa orgulhosa pela atividade dela e pelos ensinamentos. Ela é vaidosa, está sempre de cabelo cortado, unha em gel, é muito animada, mesmo depois de perder o marido e o filho. Ver vovó com essa atividade, com essa vitalidade, me deixa feliz e eu peço muito a Deus que eu tenha herdado isso, que eu possa chegar aos 80 anos dessa forma”.
Bisneta de Socorro, a estudante de medicina Vittória Lemos afirma que sua “bivó”, como costuma chamá-la, é uma fonte de inspiração. As duas já partilharam de muitos momentos juntas e Socorro sempre está disposta a repassar a herança que aprendeu com a avó e sua mãe,
ortalecendo a corrente feminina de geração em geração: “Ela é uma pessoa assim, alegre, que faz piada, que brinca, que é realmente gostoso de estar perto. Ela tem muita coisa para ensinar. Desde costura, receita, conselho de vida, tudo que você puder imaginar. Aos 89 de anos de idade, ela é uma mulher independente, uma mulher que é bem teimosa. Assim, no bom sentido da palavra, de quando ela quer alguma coisa, ela faz. A idade nunca foi impeditiva para ela”.
Para Socorro, o segredo para que ela viva de forma longínqua, é o amor de sua família, citando algumas coisas que garantem seu bem-estar: “É viver com saúde, fazer as coisas para os meus netos e bisnetos e minha família, graças a Deus todos me tratam bem. Minha família é tudo no mundo, e eu confio em Jesus para me dar forças para lutar porque eu vi como a minha mãe sofreu”.
Com muito orgulho ela fala de todos os seus entes queridos e da rede de apoio que tem, fortalecendo assim os laços afetivos e possibilitando que ela mostre que idade é só um número: “Todo mundo gosta de mim e eu gosto deles. Nem sei explicar o que é a minha família, mas graças a Deus tenho sorte, eu tive filhos, mas não criei para mim, foi para o mundo”.

