Por Pedro Lúcio
Com a reorientação do seu portfólio de projetos feita pela Petrobrás a partir de 2015, a estatal passou a abrir mão da sua atuação em campos maduros para focar na exploração em águas profundas, como o pré-sal. A partir disso, o Rio Grande do Norte passou a ser um dos estados onde a estatal passou a executar um plano de desinvestimento, reduzindo postos de trabalho, seja pela transferência de profissionais que atuavam no RN para outros estados, seja pela entrada desses trabalhadores em planos de demissão voluntária ou acordada.
Quando a iniciativa foi posta em prática, segundo Ivis Corsino, coordenador geral do Sindipetro/RN, a Petrobrás contava com uma força de trabalho de cerca de 2800 trabalhadores próprios e cerca de 20 mil terceirizados. Hoje, são apenas 500 funcionários diretos e em torno de 4 mil terceirizados.
Um dos trabalhadores impactados com esse desinvestimento foi Marcus Moura. O geólogo, que atua na estatal há 16 anos, se viu obrigado a mudar sua rotina para se transferir para o Rio de Janeiro, onde poderia continuar exercendo sua profissão, pois o abandono dos campos maduros limitou as possibilidades de atuação dele em seu estado natal. “Eu trabalhava com vários campos que operam na bacia potiguar tanto em terra, quanto em mar. Mais recentemente, eu estava trabalhando mais com terra e todos os campos que eu trabalhava foram vendidos. E aí antes disso, antes de serem efetivamente vendidos, eu saí correndo atrás de um lugar que me recebesse”, explica Marcus.
“Quando eu vi a necessidade de vir para o Rio, porque não tinha jeito, não tinha como continuar no Rio Grande do Norte, na visão que a gente tinha naquela época não tinha perspectiva. Então, a gente foi pensar se vale a pena vir todo mundo. O custo de vida aqui é alto e iria mudar muito a rotina de vida de seis pessoas, então decidi vir sozinho”, complementa Marcus, que tem se dividido entre o Rio de Janeiro e Natal, indo e voltando toda a semana.
Outro trabalhador afetado, que preferiu manter sua identidade em anonimato, relata que resistiu à pressão feita pela gestão da Petrobrás para a adesão dos trabalhadores às transferências. Uma postura que chamou de “chantagem”.
Ele nos contou que, quando foi anunciado o plano de desinvestimento, passou a se sentir inseguro em relação ao seu trabalho, não sabia se iria conseguir manter seu posto.
Posteriormente, viu amigos irem para outros estados e sofrerem com a mudança de rotina, especialmente quem tinha filhos pequenos. “Um amigo que trabalhava comigo no mesmo setor se mudou para o Rio, chegando lá seu filho mais novo passou a sofrer um bullying pesado por ser nordestino e, hoje em dia, precisa passar por um tratamento pesado. A gente fica pensando que se ele tivesse ficado, nada disso teria acontecido”.
Esse caso, acabou por aumentar a resistência dele em se transferir para outro estado, no entanto, quando a Petrobrás decidiu que iria diminuir, significativamente, os incentivos para a transferência, ele se viu obrigado a discutir com a família sobre a possibilidade de transferência.
“Eu cheguei para minha família e falei: ‘se não me transferir agora, vou acabar sendo transferido mais na frente, mas sem o incentivo adequado’. Minha esposa concordou e levamos para os nossos filhos, só que minha filha mais velha não quis se mudar de jeito nenhum, a gente já tinha morado no Rio e não muito bom para ela, então ela me falou que preferia morar em qualquer canto aqui, do que voltar para lá. Foi aí que minha esposa falou que era melhor não discutirmos mais isso, pois essa mudança nem tinha acontecido, mas já estava dividindo a família. Daí, eu resisti a transferência”.
Ele completa o relato afirmando que depois disso passou a conviver com insônia e desânimo para o trabalho durante os meses que se seguiram, estava se vendo “num beco sem saída”, pois sua transferência já tinha data marcada, seria em abril deste ano.
A notícia da suspensão das transferências compulsórias foi um alívio para ele e para os demais trabalhadores que estavam na mesma situação. “Quando chegou esse anúncio, que era tudo que a gente queria, permanecer aqui e continuar trabalhando, foi um momento de muita alegria. Mas ele superou ainda mais as nossas expectativas, pois, além de cancelar as transferências, a gente vai abrir uma diretoria de Energias Renováveis e a sede vai ser em Natal. Eu derramei lágrimas no auditório, tinham pessoas em prantos, foi uma sensação de alívio”, finaliza.
A criação da nova diretoria de Energias Renováveis também foi comemorada por Ivis Corsino, “isso cria uma nova perspectiva para empresa aqui no estado, porque a gente realmente não via, por parte da Petrobrás, nenhuma aplicação de investimento no Rio Grande do Norte”, explica o coordenador geral do Sindipetro, que ainda afirma que o investimento na produção de energias renováveis no RN, como eólica onshore e offshore, além de hidrogênio verde, representa uma retomada de contratações de investimentos no estado.
“A gente está falando aqui de transformar a Petrobrás no indutora de dezenas de milhares de postos de trabalho. […] Em 3 anos a gente espera ter um parque eólico [offshore] já instalado, a gente ter a produção de hidrogênio verde já instalada e ter as reservas de águas profundas já mapeadas, mas esse é um prazo bastante desafiador” finaliza Ivis.

