Em meio à corrida eleitoral, na última semana de campanha, o Brasil terá dois representantes-chave da diplomacia em uma reunião do G20 do Comércio, que ocorre na próxima quarta e quinta-feira, na cidade de Milwaukee, nos Estados Unidos. O chanceler Mauro Vieira e o ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, devem se opor à postura do governo Donald Trump em relação à aplicação de tarifas a produtos brasileiros que, no caso do agro, incluem açúcar, etanol, arroz, madeira, ovos, tabaco e uva.
A postura brasileira deve ser de questionamento da transparência das demandas norte-americanas relacionadas à aplicação de taxas sobre mercadorias que teriam sido produzidas com trabalho forçado. Nas entrelinhas, estão a defesa do Brasil como maior fornecedor global de alimentos e o cumprimento de uma agenda comercial em que os representantes do governo precisarão ser contundentes nas questões de fornecimento e exportação, especialmente de produtos agrícolas.
Embora os produtos que continuam taxados não representem uma grande fatia do comércio entre EUA e Brasil, com exceção da madeira e do tabaco, os embarques para o país de Trump recuaram nos últimos meses. As exportações de café, por sua vez, começaram a se recuperar imediatamente após a retirada das tarifas do produto, em agosto deste ano.
No entanto, o setor cafeeiro teme que uma “canetada final” para manter a aplicação de alíquotas de 12,5% em algumas mercadorias brasileiras, sob a justificativa de combater o trabalho forçado, possa atingir cadeias que já se encontram em um cenário bilateral mais confortável, como as do café e das carnes.
O comitê comercial do G20, porém, oferece espaço para marcar posição e para uma eventual conversa com Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos, à frente do USTR — órgão responsável pela política comercial norte-americana. A possibilidade de um encontro foi anunciada por Mauro Vieira ao jornal O Globo, no último dia 15 de setembro, e confirmada posteriormente pela comunicação oficial do governo brasileiro.
Retomar o debate do tarifaço, caso haja uma oportunidade concreta em Milwaukee, significa dar continuidade à discussão técnica após o pedido de consultas apresentado pelo Brasil à OMC (Organização Mundial do Comércio), em 27 de julho deste ano, e aceito pelos EUA em agosto. A primeira reunião entre técnicos brasileiros e americanos ocorreu na última sexta-feira (25), marcando o início da contagem de 60 dias para a revisão final da aplicação de tarifas que podem chegar a 37,5% para alguns produtos.
Na ocasião, em Genebra, a comitiva brasileira apresentou 50 questionamentos à delegação americana, que respondeu a todos. Não houve, porém, nenhuma decisão. O tema não deve esfriar, já que está associado a questões geopolíticas que se sobrepõem às discussões de segurança alimentar e fornecimento de alimentos na OMC.
Até alguns anos atrás, a organização, assim como o G20, concentrava o debate a respeito da produção de alimentos principalmente na perspectiva da oferta e da demanda. Com o agravamento dos conflitos globais e das variações climáticas, porém, o assunto passou a ser cada vez mais atravessado pela geopolítica. A consequência é a maior presença de discussões sobre economia alimentar, estabilidade no fornecimento de matérias-primas e cumprimento de requisitos fitossanitários, ao lado de preocupações como a escassez de produtos.
Nesse jogo de xadrez, a carta na manga do Brasil — que incomoda veladamente os americanos — está nos números. Se as safras de grãos de 2026/27 confirmarem as projeções de recorde, o país deve ultrapassar os EUA nas exportações de produtos agrícolas e liderar o ranking global.
Em 2025, o Brasil alcançou US$ 169 bilhões em exportações agrícolas, enquanto os Estados Unidos registraram US$ 171 bilhões. A diferença é de cerca de US$ 2 bilhões, bem abaixo da registrada em 2021, quando a vantagem americana era de US$ 56 bilhões.
O recorde de US$ 87 bilhões em exportações brasileiras no primeiro semestre deste ano reforça a expectativa de que o país assuma a liderança. Isso ocorre em um momento em que a pecuária americana enfrenta sua pior crise de rebanho e os agricultores demonstram insatisfação com as medidas internas de auxílio diante dos custos mais altos, das margens apertadas e das dificuldades para expandir a produção de milho e soja.
China no meio
A China pediu para participar das conversas entre Brasil e EUA na OMC sob a justificativa de interesse comercial, pois as medidas em debate afetam produtos manufaturados chineses. Entretanto, a parte americana barrou a presença dos chineses.
Do lado brasileiro não havia tido oposição à participação da China. Simultaneamente, Donald Trump e Xi-Jinping cumpriram agenda bilateral, bem mais focada em inteligência artificial do que em agro.
Após o encontro, a única menção de Trump relacionada ao agronegócio foi de que a reunião havia sido boa e deveria ajudar agricultores e pecuaristas dos EUA, uma sinalização de evidência da produção doméstica. Nenhuma das partes revelou novos acordos de compras de commodities, nem mudanças em tratativas já em andamento, como a cota de soja que os chineses determinaram negociar com os EUA, em 25 milhões de toneladas até 2028.
*Com informações de CNN

