Uma rede de 19 contas que fazem publicações de apoio a nomes da direita, como Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira, realizou uma série de postagens para impulsionar um perfil dedicado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O levantamento foi realizado pelo ICL Notícias e identificou 117 publicações entre os dias 5 e 9 de setembro, período marcado pelo agravamento da crise interna no STF. Segundo a reportagem, os conteúdos direcionaram usuários para o perfil @andremendoncas3, que passou de 24 seguidores para 329.722 em menos de dez dias.
As publicações foram organizadas em 18 rodadas. Em sete delas, diversas contas fizeram postagens de forma conjunta, com intervalo mediano de pouco mais de dois minutos entre os conteúdos. Ao todo, as 117 publicações registraram mais de 2,5 milhões de interações, segundo o levantamento.
A primeira publicação da ofensiva identificada pela reportagem ocorreu às 16h21 de 5 de setembro. Na madrugada seguinte, 17 perfis fizeram postagens em uma janela de 27 minutos. Outra rodada, em 7 de setembro, reuniu 14 contas em 37 minutos.
Perfil mudou de identidade
O levantamento aponta que o perfil beneficiado pela movimentação tinha outra identidade poucos dias antes. Em 30 de agosto, a conta se chamava @alteniamarall, usava o nome “Alteni | Política”, tinha apenas uma publicação e contava com 24 seguidores.
Posteriormente, passou a utilizar o nome “André Mendonça, Apoio BR” e a divulgar conteúdos relacionados ao ministro. O identificador interno da conta permaneceu o mesmo, o que permitiu aos pesquisadores confirmar que se tratava do mesmo perfil.
Entre as 19 contas envolvidas diretamente na ação, o ICL identificou ainda cinco que anteriormente utilizavam identidades relacionadas à religião. Uma conta que atualmente utiliza o nome de Flávio Bolsonaro, por exemplo, já havia se chamado @deusmandouu. Outra, atualmente associada a Nikolas Ferreira, usava anteriormente @deusquerfalarr.
A pesquisadora Nina Santos, doutora em Comunicação pela Universidade de Paris e especialista em democracia digital, avaliou ao ICL que os dados indicam uma ação coordenada. Ela destacou, porém, que a coordenação de estratégias de comunicação não constitui, por si só, uma irregularidade.
Mobilização começou meses antes
Segundo o levantamento, a utilização de redes de apoio a Mendonça para atrair seguidores começou antes da ofensiva de setembro.
Desde 8 de junho, 21 perfis fizeram 47 publicações com uma mensagem em defesa do ministro. Os conteúdos acumulavam mais de 1,4 milhão de interações em três meses.
Naquela ocasião, entretanto, os usuários eram direcionados principalmente para uma página não oficial dedicada ao deputado federal Nikolas Ferreira. Treze dos 21 perfis identificados nessa primeira movimentação também participaram da operação de setembro.
Crise no Supremo
A mobilização ocorreu em um momento de grande exposição de André Mendonça nas redes sociais. Nos dias 6 e 7 de setembro, o levantamento identificou 257 publicações sobre o ministro. Desse total, 187 foram feitas por perfis que não participaram diretamente da operação analisada.
O ICL também informou que a equipe do Aos Fatos identificou ao menos 24 perfis dedicados a Mendonça e promovidos por meio de publicações colaborativas e convocações para que seguidores de contas políticas passassem a acompanhá-los.
A reportagem do ICL afirma não ter encontrado indícios de que André Mendonça tenha participado, autorizado ou tivesse conhecimento da operação. As contas analisadas são administradas por terceiros. A Meta foi questionada sobre a atuação coordenada e as mudanças de identidade dos perfis, mas não havia respondido até a publicação da reportagem.

