O ex-senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou de um grupo de WhatsApp com pessoas que posteriormente passaram a ser investigadas no caso das fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. O grupo, chamado “África do Sul”, foi criado durante uma viagem realizada em março de 2025 e reunia registros de um safári feito pelo grupo.
Entre os participantes estavam o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o advogado Willer Tomaz, o empresário Carlos Alberto de Sá, conhecido como Carlinhos, além das esposas de integrantes da viagem. A Polícia Federal teve acesso ao material após apreender o celular de Weverton no âmbito da Operação Sem Desconto. A existência do grupo e das imagens, por si só, não indica participação de Flávio nas suspeitas investigadas no caso INSS.
Grupo de WhatsApp guardava registros do safári
O grupo recebeu o nome de “África do Sul” e concentrava fotografias da viagem realizada em março de 2025. Entre os registros estavam imagens dos participantes e fotos de elefantes e outros animais feitas durante um safári.
Uma das fotografias foi enviada ao grupo em 10 de março de 2025 e mostra Flávio ao lado de Weverton, Willer e Carlos Alberto de Sá. O material estava armazenado no telefone de Weverton, posteriormente apreendido pela Polícia Federal.
A viagem ocorreu antes de as fraudes envolvendo descontos associativos em benefícios do INSS ganharem repercussão pública nacional, em abril de 2025. Por isso, a presença dos integrantes na viagem não demonstra que Flávio tivesse conhecimento das suspeitas que posteriormente passaram a ser investigadas.
Weverton e Willer aparecem em investigação da PF
Weverton Rocha e Willer Tomaz aparecem em uma frente de investigação relacionada à Operação Sem Desconto. Documentos já analisados pela Polícia Federal tratam de suspeitas sobre movimentações financeiras e patrimoniais e possíveis relações com recursos provenientes do esquema de descontos associativos no INSS.
Em decisões judiciais relacionadas ao caso, investigadores situaram Weverton como possível beneficiário econômico de uma estrutura que ainda está sob apuração. Willer, por sua vez, foi descrito pela PF como integrante relevante de uma rede financeira, patrimonial e logística.
As afirmações fazem parte das hipóteses investigativas apresentadas pela Polícia Federal e não representam condenação. As responsabilidades individuais ainda dependem da conclusão das investigações e da análise judicial das provas.
PF encontrou material no celular de Weverton
O acesso às fotografias e ao grupo de WhatsApp ocorreu depois que investigadores apreenderam o telefone de Weverton no fim de 2025, durante uma fase da Operação Sem Desconto.
O celular do senador já havia revelado outros registros envolvendo políticos e Willer Tomaz. Em agosto, veio a público uma fotografia encontrada no aparelho que mostrava parlamentares em uma piscina ao lado do advogado durante um encontro em uma propriedade ligada a ele.
Naquele episódio, a própria investigação ressaltou que aparecer em uma fotografia ou manter relação pessoal com alguém investigado não constitui, isoladamente, evidência da participação em crimes.
Empresário do grupo foi citado pela CPI da Covid
Outro integrante do grupo “África do Sul” era Carlos Alberto de Sá, empresário ligado à VTCLog e ao Grupo Voetur. O relatório final da CPI da Covid, aprovado pelo Senado em 2021, pediu seu indiciamento por corrupção ativa e improbidade administrativa.
A comissão investigou suspeitas relacionadas a um contrato da VTCLog com o Ministério da Saúde para serviços de armazenamento e distribuição de insumos. Entre os pontos analisados estavam movimentações em dinheiro vivo e alterações no valor contratual por meio de aditivos.
O relatório da CPI representava uma recomendação de indiciamento e não uma condenação judicial. As apurações citadas pela comissão não resultaram, naquele momento, em responsabilização criminal de Carlos Alberto de Sá. Quando ocorreu a viagem à África do Sul, em março de 2025, não havia condenação decorrente dessas suspeitas contra o empresário.
Carlinhos diz que pagou as próprias despesas
Carlos Alberto de Sá afirmou que mantém relação de amizade com Willer Tomaz e que foi convidado pelo advogado para participar da viagem.
Segundo o empresário, ele pagou as próprias despesas de viagem e hospedagem e não arcou com os custos de outros participantes.
Weverton Rocha também afirmou que mantém amizade de longa data com Willer e que os dois já fizeram outras viagens em família. O senador sustentou que essas relações são privadas e não envolvem recursos ou interesses públicos.
Willer afirma que viagens com Flávio são privadas
Willer Tomaz também afirma manter uma amizade pessoal antiga com Flávio Bolsonaro e sua família. Segundo o advogado, as viagens feitas com o senador tiveram caráter privado e foram pagas com recursos próprios.
O advogado nega que as viagens tenham qualquer relação com funções públicas, contratos ou interesses de terceiros. Ele também contesta a afirmação de que seja investigado no inquérito relacionado às fraudes no INSS.
Documentos de decisões do STF já divulgados, entretanto, mostram Willer como alvo de medidas autorizadas no âmbito de uma investigação que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção passiva relacionadas a Weverton Rocha. Em agosto, o Supremo autorizou inclusive o rastreamento temporário da localização do celular do advogado durante diligências da PF.
Flávio não respondeu sobre grupo e viagem
Flávio Bolsonaro foi procurado para comentar a viagem, a existência do grupo de WhatsApp e sua relação com Weverton Rocha, Willer Tomaz e Carlos Alberto de Sá, mas não havia apresentado resposta até a publicação das informações.
Não há, no material divulgado sobre a viagem, indicação de que Flávio tenha participado das irregularidades investigadas no caso INSS. O episódio mostra uma relação pessoal e uma viagem compartilhada com pessoas que, posteriormente, passaram a aparecer em diferentes investigações.
O contexto temporal também é relevante: o safári aconteceu em março de 2025, enquanto o escândalo dos descontos indevidos do INSS só ganhou ampla repercussão pública no mês seguinte.
Entenda o contexto
A Operação Sem Desconto investiga um esquema de cobranças associativas feitas sobre benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. A apuração se desdobrou em diferentes frentes para identificar responsáveis, beneficiários e o caminho percorrido pelo dinheiro.
Weverton Rocha e Willer Tomaz aparecem em uma dessas frentes. Em documentos judiciais já tornados públicos, a Polícia Federal apresentou suspeitas sobre uma estrutura financeira e patrimonial que teria sido utilizada em benefício do senador. As hipóteses ainda estão em investigação e não representam conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal.
A descoberta do grupo de WhatsApp ocorreu a partir do celular apreendido de Weverton. As mensagens e fotografias mostram que Flávio, Weverton, Willer, Carlos Alberto de Sá e familiares participaram da viagem à África do Sul em março de 2025.
As relações pessoais registradas nas imagens não comprovam envolvimento de Flávio Bolsonaro nas suspeitas investigadas. A relevância do material para a apuração depende do contexto, de eventuais outros elementos obtidos pela PF e das conclusões futuras das autoridades responsáveis pelo caso.
*Com informações do NCnews

