Por Elane Nascimento
Com apenas 4 anos, Sophie Souza deu uma demonstração de empatia que emociona pela simplicidade do gesto. Vaidosa e apaixonada pelos longos cabelos, ela decidiu renunciar aos fios para ajudar crianças que enfrentam o tratamento contra o câncer. A iniciativa aconteceu justamente em setembro, mês dedicado à conscientização sobre o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil, conhecido como Setembro Dourado.
A decisão partiu da própria menina, depois de conhecer uma campanha de arrecadação de cabelos para a confecção de perucas. Em casa, a escolha surpreendeu os pais.
“A gente não incentivou Sophie. Eu e principalmente o pai não queríamos que ela cortasse o cabelo. Amamos cabelo grande. Ela falou que queria cortar, mas eu esperei uns meses para ver se ela mudava de ideia. Como ela não mudou, deixamos que ela cortasse”, disse a mãe, Daniela Souza.
Acostumada a usar diferentes penteados para ir à escola e passear com a família, Sophie sempre demonstrou carinho pelos cabelos. Por isso, Daniela acreditava que a filha poderia desistir da ideia.
“Eu tinha medo de que ela se arrependesse e ficasse triste. Mas ela ficou muito feliz e amou o corte. Eu pensei só na estética, pois ela amava o cabelo e não queria cortar de jeito nenhum. E muito rápido mudou de ideia”, afirmou.
Para Sophie, entretanto, a decisão tinha um significado maior do que apenas mudar o visual.
“Eu queria doar o meu cabelo para uma menininha que não tem cabelo porque ela tem uma doença”, disse.
Mesmo depois de a mãe explicar que ela não poderia mais usar os coques de que tanto gostava, a pequena manteve a decisão.
“Minha amiga vai ter o meu cabelo e vai poder fazer o penteado. Quando eu tiver 5 anos meu cabelo vai crescer e eu vou fazer outro penteado”, respondeu com tranquilidade.
Medalha celebra pequenos grandes gestos
Depois de perceber que a filha realmente queria fazer a doação, a família procurou um salão especializado em cortes infantis que também incentiva campanhas solidárias.
Segundo a proprietária do espaço, Larissa Borges, cada criança que doa os cabelos recebe uma medalha em reconhecimento ao gesto.
“O salão tem cinco anos e, há quatro anos, eu criei uma medalha bem linda, que tem uma frase: ‘Sua juba tem mais força do que você imagina!’. Lá tudo brinca com essa questão da juba porque o nosso mascote é um leãozinho. É um incentivo para essa doação de cabelo, para as crianças perceberem que estão fazendo algo muito legal. É tanto que merece honra, merece homenagem, merece uma entrega de uma medalha especial. E elas ficam super felizes. Sophie foi uma delas”, explicou.
A campanha acontece durante todo o ano. As famílias podem agendar o corte normalmente, sem necessidade de esperar uma data específica.
“A gente vai juntando esses cabelos ao longo do ano, não existe uma data específica para recebermos. As crianças agendam normalmente um corte, uma transformação. Existe essa informação sobre a medalha, a partir de tantos centímetros, e é uma forma de incentivar o corte”, detalhou.
Somente em 2025, o salão reuniu 40 doações de cabelo destinadas à confecção de perucas.
Os cabelos arrecadados são destinados à Casa Rosa RN, instituição responsável pela confecção de perucas emprestadas gratuitamente a pacientes em tratamento contra o câncer e pessoas com alopecia.
Mais do que estética, uma ferramenta para enfrentar desafios do tratamento

Segundo a psicóloga da Casa Durval Paiva, que acolhe crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer infantojuvenil, Gilvania Guedes, a perda dos cabelos representa um dos momentos mais delicados para crianças e adolescentes diagnosticados com câncer, porque torna o adoecimento visível e modifica profundamente a forma como eles enxergam a própria imagem.
“A gente parte da compreensão de que, no início do tratamento, existe toda uma reorganização da família, porque tudo se transforma desde o momento da notícia da doença. Tanto para crianças quanto para adolescentes e para a família, todo mundo é impactado pelo adoecimento”, explicou.
A psicóloga ressalta que a queda dos cabelos costuma marcar uma mudança importante na percepção que o paciente tem de si mesmo.
“A doença passa a ficar muito explícita a partir do momento em que a criança perde o cabelo.
Para elas isso é muito forte e muito potente, porque evidencia o que está acontecendo”, afirmou.
Entre os adolescentes, segundo Gilvania, o impacto costuma ser ainda maior devido ao processo de construção da identidade.
“Na adolescência, a identidade ainda está sendo construída. Quando o adoecimento acontece junto com a perda do cabelo e a mudança da aparência, essa fase se torna ainda mais complexa emocionalmente”, destacou.
Por isso, recursos como perucas e lenços fazem parte do cuidado psicológico oferecido aos pacientes.
“A gente utiliza estratégias para minimizar esse sofrimento. Ele não deixa de existir, mas pode ser amenizado. Além do atendimento psicológico, usamos ferramentas como a peruca e o lenço para ajudar crianças e adolescentes a enfrentarem principalmente o início do tratamento”, pontuou.
Como doar
A Casa Rosa mantém uma campanha permanente de doação de cabelos para a confecção de perucas destinadas a mulheres em tratamento oncológico e pessoas com alopécia. A instituição aceita fios naturais, inclusive com química, como tintura e alisamento. Para doar, o cabelo deve estar limpo, completamente seco e preso em um rabo de cavalo antes do corte.
Quem doar mechas com mais de 30 centímetros pode participar do Corte Solidário, que oferece corte gratuito na sede da Casa Rosa ou em salões parceiros, mediante agendamento. Desde 2012, a instituição também realiza o empréstimo e a manutenção gratuitos de perucas de cabelo natural, além de oferecer acolhimento durante o tratamento. As doações podem ser entregues na sede da Casa Rosa, na Avenida Rui Barbosa, 327.

