A cada quatro anos, a Copa do Mundo transforma a rotina dos brasileiros. Ruas ganham decoração verde e amarela, famílias se reúnem diante da televisão, bares ficam lotados e até horários de trabalho costumam ser ajustados para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira. Mais do que uma competição esportiva, o Mundial se torna um fenômeno social capaz de mobilizar emoções intensas em milhões de pessoas. Mas o que explica tamanho envolvimento emocional?
Segundo a psicóloga clínica e neuropsicóloga Candice Galvão, a resposta está em fatores que vão muito além do futebol. Para ela, a Copa do Mundo reúne elementos ligados à memória afetiva, à identidade nacional e à necessidade humana de pertencimento.
“Do ponto de vista psicológico, a Copa do Mundo representa um dos raros momentos em que milhões de pessoas compartilham, simultaneamente, uma mesma narrativa emocional. Não se trata apenas do jogo ou do placar. A mobilização está ligada à memória afetiva, à identidade coletiva e à necessidade humana de pertencer”, explica.
No Brasil, o futebol ocupa um espaço que ultrapassa o entretenimento. Está presente nas lembranças da infância, nas conversas em família, nos encontros entre amigos e nas histórias construídas ao redor de grandes partidas. Por isso, durante a Copa, as emoções despertadas muitas vezes não se limitam ao que acontece dentro das quatro linhas.
De acordo com Candice Galvão, a expectativa pela competição já é suficiente para ativar lembranças e sensações acumuladas ao longo da vida. Elementos como a camisa da Seleção, a televisão ligada, o cheiro do churrasco, a casa cheia e os gritos da vizinhança funcionam como gatilhos emocionais.
“As emoções não são construídas de forma isolada. Elas são atravessadas pela cultura, pela história e pelas relações que estabelecemos. A Copa do Mundo resgata experiências emocionais que ficaram marcadas e reconecta muitas pessoas a fases, vínculos e lembranças importantes”, afirma.
Outro aspecto destacado pela especialista é o fortalecimento da identidade coletiva durante o torneio. Em meio à competição, milhões de brasileiros passam a compartilhar uma mesma expectativa. Diferenças sociais, regionais e políticas acabam ficando em segundo plano diante do desejo comum de ver a Seleção vencer.
Na avaliação da psicóloga, esse sentimento compartilhado amplia a intensidade das emoções vividas durante o Mundial.
“Quando a Copa se aproxima, a percepção de pertencimento se fortalece. A pessoa sente que faz parte de um grupo e que o sucesso ou o fracasso desse grupo também lhe pertence. Essa sensação de fazer parte de algo maior do que nós mesmos produz uma experiência emocional muito poderosa”, analisa.
A especialista ressalta ainda que a relação histórica do Brasil com o futebol contribui para esse fenômeno. Ao longo das décadas, a Seleção Brasileira passou a ocupar um lugar simbólico de orgulho e representação nacional, envolvendo inclusive pessoas que não acompanham regularmente campeonatos ao longo do ano.
Além disso, a Copa do Mundo pode funcionar como uma pausa emocional em meio às pressões do cotidiano. Durante o período da competição, muitos brasileiros encontram no evento um espaço de união, esperança e descontração.
“Em muitos momentos, a Copa cria uma suspensão temporária da rotina. A felicidade se instala, ainda que momentaneamente, e algumas preocupações ficam em segundo plano. O evento oferece uma experiência de união, pertencimento e esperança”, destaca.
Para Candice Galvão, a emoção despertada pelo Mundial não deve ser encarada como exagero, mas como uma manifestação legítima de vínculos afetivos e memória coletiva.
“Talvez a maior emoção da Copa não esteja somente no futebol, mas na necessidade profundamente humana de pertencer. O brasileiro se emociona porque a Copa o reconecta a pessoas, histórias, lugares e lembranças. É uma experiência que mobiliza não apenas a torcida, mas a memória afetiva de um país inteiro”, conclui.

