Em meio a uma grave crise financeira, um dado chama atenção no relatório produzido por uma comissão independente de membros da Igreja Batista Filadélfia, no Guará: o salário do então presidente da instituição disparou nos últimos anos, mesmo com o avanço das dívidas e o agravamento da situação fiscal. As informações são do Metrópoles.
De acordo com o documento, o pastor Marcos Campos recebia R$ 37 mil em 2021. No entanto, sua remuneração teve um salto expressivo de 33%, alcançando R$ 49.877 em fevereiro de 2025. O aumento ocorreu em paralelo ao crescimento da dívida, dos juros e de tributos não quitados, consumindo a liquidez da igreja justamente em um momento de fragilidade financeira.
O relatório aponta que, enquanto a remuneração da presidência apresentava a maior expansão absoluta entre os custos da instituição, as contas da igreja seguiam deteriorando. Atualmente, o passivo total chega a R$ 1,8 milhão.
Dívidas tributárias
Desse montante, R$ 1.490.571 correspondem a dívidas tributárias — o equivalente a 82% do total — enquanto R$ 322.119 referem-se a outras obrigações. O documento também evidencia um déficit mensal de R$ 275 mil, considerado um sintoma de desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas.
Outro fator que contribuiu para o colapso financeiro foi o investimento de R$ 3,9 milhões em obras nos últimos cinco anos, realizado sem planejamento financeiro adequado ou formação de reservas.
A auditoria que revelou os números foi conduzida por uma comissão de membros da igreja e validada pelo contador da instituição em assembleia. O relatório resultou na exclusão do pastor da presidência.
Escândalo agrava crise
A crise financeira ocorre paralelamente a um escândalo criminal envolvendo o filho do ex-presidente, Gabriel de Sá Campos, de 30 anos. Ele se tornou réu após ser acusado de abusar sexualmente de adolescentes que frequentavam a igreja no Guará. Preso desde dezembro do ano passado, o ex-líder religioso está atualmente no Centro de Detenção Provisória (CDP), no complexo da Papuda.
As investigações apontam que os crimes ocorreram desde 2019 e envolveram vítimas com idades entre 10 e 16 anos. Segundo a Polícia Civil, ele utilizava sua posição de liderança para ganhar a confiança dos jovens e cometer abusos de forma premeditada.
Relatos indicam que os crimes ocorreram tanto na igreja quanto na residência do acusado, em situações como encontros privados, festas e atividades organizadas por ele.
Omissão e silêncio
O caso também levanta suspeitas sobre a conduta da antiga liderança da igreja. Ao tomar conhecimento de uma das denúncias, o então presidente teria tratado o caso como “brincadeira” e pedido silêncio à família da vítima.
Em reuniões internas, integrantes da liderança minimizaram as acusações, classificando-as como “mal-entendidos” e defendendo que os problemas fossem resolvidos internamente, sem acionamento das autoridades.
Mesmo após o afastamento formal, o acusado continuou frequentando a igreja e tendo acesso a áreas restritas, segundo relatos. Há ainda denúncias de intimidação contra vítimas e familiares, incluindo ameaças e abordagens sem a presença de responsáveis legais.
Colapso financeiro e moral
Para os membros da comissão responsável pela auditoria, o cenário é resultado de uma combinação de má gestão financeira, ausência de transparência e falhas graves na condução institucional.
O relatório descreve a situação como crítica e aponta que a igreja enfrenta não apenas um colapso financeiro, mas também uma profunda crise moral e de governança.
A instituição agora tenta lidar com as consequências de anos de decisões que, segundo o documento, comprometeram tanto sua sustentabilidade quanto sua credibilidade perante os fiéis.
Outro lado
Em nota, Marcos Antônio Santos Campos justificou que “nenhuma decisão financeira relevante [dentro da igreja] foi tomada unilateralmente”. “As contas da Igreja são apresentadas à Assembleia Geral.”
De acordo com ele, os membros da assembleia teriam conhecimento de impostos que deixaram de ser pagos na pandemia e da nova crise financeira na igreja no exercício de 2025. “Nossa arrecadação, que vinha em recuperação, sofreu novo baque. O Gerente Administrativo voltou a enfrentar dificuldades para honrar compromissos”, disse.
Marcos disse ter sido “bem remunerado pela igreja ao longo de todos os anos – porque isso é justo e correto”. “Minha remuneração foi sempre reajustada com aprovação do Corpo Diaconal e referendo da Assembleia Geral, conforme exige o próprio Regimento Interno”. Mas alegou que não recebe remuneração da igreja desde janeiro de 2026.
Sobre o afastamento, ele disse não ter sido, mas jubilado da igreja. De acordo com ele, a decisão foi tomada por orientação jurídica e eclesiástica para “preservar a instituição” após a situação envolvendo o filho dele.
“Depois de tudo o que aconteceu, entendi que não tinha mais condições emocionais e pastorais de continuar à frente da Igreja que amei e servi por quase um quarto de século. Voluntariamente, pedi meu jubilamento” afirmou.

