Assisti, depois de alertado pelo amigo assuense Leônidas Medeiros, bacurau de quatro costados, a entrevista do ex-deputado federal Henrique Eduardo Alves numa rádio local.
Na política do Rio Grande do Norte, onde a memória costuma ser mais longa do que a paciência, poucos personagens carregam uma biografia tão extensa quanto Henrique. Sua história se mistura com a do velho MDB, partido que já nasceu como oposição consentida e terminou virando um vasto condomínio de sobreviventes.
Henrique não chegou à política por acaso. Chegou por herança, por destino e por urgência histórica. Era ainda um rapaz quando o regime nascido do acerto entre militares e civis, em 1964, cassou, em 1969 os direitos políticos de seu pai, Aluízio Alves, então maior liderança popular do estado. A cassação foi um ato administrativo do regime e uma tentativa de silenciar uma linhagem política que havia aprendido a falar alto e a incomodar. A política, porém, tem dessas ironias: quando o poder fecha uma porta, abre uma vocação. E aos 22 anos, Henrique entrou para o recém-criado Movimento Democrático Brasileiro, legenda que funcionava como válvula de escape institucional da oposição ao regime militar, elegendo-se deputado federal em 1970, iniciando uma carreira que mais parece uma maratona parlamentar. Vieram onze mandatos consecutivos, um recorde que diz muito sobre a persistência de um homem e sobre a lógica da política brasileira, na qual a sobrevivência é quase uma forma de sabedoria.
Durante os anos de chumbo, Henrique não foi um tribuno incendiário. Não fazia discursos de barricada. Sua atuação era mais discreta, mais calculada, típica da ala moderada do MDB. Enquanto outros gritavam nas tribunas, ele trabalhava nos bastidores, mantendo viva a chama do aluizismo no estado. Quando a reforma partidária de 1979 dissolveu o MDB e criou novos partidos, Henrique seguiu para o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que herdou a alma e a musculatura política da velha oposição e participou de um dos momentos mais vibrantes da história política brasileira: as Diretas Já. O país começava a sair do longo inverno autoritário e o PMDB se transformava na principal engrenagem da transição democrática.
Henrique esteve ao lado do pai como um dos articuladores da aliança que levou ao poder a chapa formada por Tancredo Neves e José Sarney. Era o início da Nova República e de uma nova etapa em sua carreira, afinal nos anos seguintes, ele se especializou em um tipo de política que raramente aparece nas fotografias oficiais: a política da articulação. Foi constituinte de 1987–1988, trabalhando sobretudo em temas ligados à administração pública e comunicação. Depois consolidou sua fama dentro da Câmara. Não era um deputado de frases lapidares, mas de regimentos decorados. A política brasileira sempre teve muitos tribunos, mas poucos engenheiros. Henrique era um deles durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, quando se tornou um dos operadores mais influentes do PMDB na Câmara. Conhecia os atalhos do parlamento como poucos. Sabia montar maiorias, desmontar crises e construir consensos. Esse longo aprendizado o levou, em 2013, à presidência da Câmara dos Deputados do Brasil, num momento em que o Brasil parecia viver uma febre cívica, com as ruas cheias por causa das Manifestações de Junho. O ciclo se fechou com derrota, em 2014, na disputa pela cadeira de governador (já havia sido derrotado outras duas vezes, 1988 e 1992, quando disputou o comando da capital do estado).
No Rio Grande do Norte, Henrique era mais do que um deputado. Era o rosto do MDB. Durante décadas manteve uma rede política capilarizada que atravessava municípios, prefeitos e lideranças regionais. Em certos momentos, essa presença significava aliança com outras oligarquias; em outros, conflito aberto. O MDB foi um partido de convivência – às vezes pacífica, às vezes ruidosa – entre famílias políticas.
A etapa final dessa trajetória veio com a crise que abalou o governo Dilma. Henrique foi um dos entusiastas do desembarque do PMDB da base governista. Era o velho partido exercendo sua habilidade histórica de reposicionamento. Na sequência, ocupou o Ministério do Turismo no governo de Michel Temer, depois de uma passagem breve pela mesma pasta ainda no governo Dilma. O gesto simbolizava algo maior: a permanência do MDB como peça central no tabuleiro do poder brasileiro.
É possível dizer que Henrique representa, no fundo, uma espécie de personagem clássico da política nacional. Não o herói épico, nem o rebelde romântico, mas o sobrevivente institucional, aquele que entende que a política, como o sertão, não é feita de atalhos, mas de travessias. E algumas travessias, como a dele, atravessam meio século.
