A desistência de Rogério Marinho da disputa pelo governo do Rio Grande do Norte produziu silêncio – e não alívio. E silêncio, em política, quase nunca é ausência de som, mas excesso de cálculo.
Desde o anúncio, todos passaram a olhar, com ansiedade e desconfiança, para os movimentos dos dois polos que hoje estruturam o poder no estado: os grupos liderados pela governadora Fátima Bezerra e pelo próprio Rogério Marinho. Não se trata mais de eleição apenas; trata-se de governança, uma palavra que parece técnica, mas que esconde conflitos muito antigos.
A renúncia anunciada de Fátima, em abril, para disputar uma das duas vagas para o Senado, funciona como um relógio exposto no centro da sala. Todos o veem. Todos contam os minutos. E todos sabem que, naquele intervalo entre a saída da governadora e a eleição seguinte, não haverá vácuo e, sim, disputa concentrada. É o que estudiosos da política chamam de momento crítico, quando instituições formais continuam de pé, mas o poder real se move nos bastidores.
Rogério Marinho, ao retirar-se da corrida direta, não abandona o jogo, apenas muda de posição.
Age como quem compreende uma lição clássica de Maquiavel: nem sempre é o príncipe quem aparece governando, embora seja ele quem organiza as condições do governo. Ao deslocar-se para o plano nacional, o senador livra-se do desgaste imediato e preserva influência sobre o tabuleiro local. Seu grupo continua ativo, atento às brechas institucionais e às oportunidades que surgem quando o calendário se estreita.
Do outro lado, o grupo de Fátima Bezerra enfrenta o dilema típico dos governos que terminam: como sair sem perder o controle do processo? Max Weber lembrava que o poder moderno não se sustenta apenas pela legitimidade eleitoral, mas pela dominação legal-racional – a máquina administrativa, os cargos, os ritos, os procedimentos. Ao deixar o cargo, Fátima quer sair sem deixar de garantir que o legado não seja desmontado no interstício entre a sua saída e a eleição direta do novo governador e é aí que cresce a ansiedade coletiva, pois não está claro quem governará, embora esteja bem claro que governar importa mais do que nunca. O mandato-tampão não é um detalhe jurídico. É, estejam certos, um ativo político. Quem o ocupar terá orçamento, visibilidade, agenda e capacidade de articulação. E, como ensina a ciência política comparada, incumbência importa, afinal governar, ainda que por pouco tempo, cria vantagens estruturais difíceis de neutralizar.
A desconfiança surge porque nenhum dos dois grupos confia no outro, e ambos têm razões históricas para isso. O PT potiguar nunca acreditou plenamente na neutralidade de seus adversários; o grupo de Rogério Marinho nunca acreditou que o petismo renunciaria ao controle sem tentar condicionar o futuro. É o velho problema das transições de poder, estudado desde Hobbes: quando não há confiança mútua, cada movimento do outro é interpretado como ameaça potencial e, em ambientes assim, gestos pequenos ganham peso desproporcional. Uma conversa com deputados, uma sinalização à Assembleia Legislativa, um silêncio estratégico, tudo vira indício. A política deixa de ser espetáculo público e passa a ser leitura de sinais, confirmando aquilo que Raymond Aron apontava como realismo político, quando os valores proclamados são menores do que os interesses organizados.
O grupo de Rogério Marinho observa a máquina com atenção cirúrgica. Sabe que não precisa vencer agora para vencer depois. Precisa apenas impedir que o adversário transforme o interregno em hegemonia. O grupo de Fátima, por sua vez, tenta garantir que a saída seja ordenada, sem abrir flancos que permitam a captura do governo por forças hostis ao seu projeto.
É um jogo sem vilões e heróis, no qual a racionalidade estratégica predomina, tornando a política menos ideológica e mais estrutural. Trata-se de quem controla os meios, não de quem proclama os fins. Vale o ensinamento de Gramsci: o poder se mantém mais pela organização do cotidiano do que pelo entusiasmo das massas. E é exatamente isso que está em disputa. Por isso, a desistência de Rogério Marinho não encerra nada, apenas inaugura uma fase mais silenciosa e mais densa do conflito. Uma fase em que a governança precede a eleição, e em que abril pesa mais do que outubro. O público vê pouco, mas o jogo está inteiro sobre a mesa. É um daqueles momentos em que a política se revela como ela é, com menos promessa e mais engenharia. Quem errar na conta, errará sozinho, porque o tempo, em política, raramente concede segunda chamada.
