Por Fernanda Sabino
Aberta desde o mês de dezembro, a exposição “Reinos do Imaginário” permite que o público potiguar mergulhe em um sertão reinventado na Pinacoteca Potiguar. A mostra do artista potiguar AZOL propõe uma leitura sensorial, simbólica e profundamente subjetiva do sertão nordestino. Conhecido por suas pinturas e fotografias, o artista amplia seu repertório ao incluir peças tridimensionais em madeira, barro, metal, porcelana, tapeçaria e mobiliário, criando um universo que mistura religiosidade, estética medieval e referências populares. Em cartaz até 22 de fevereiro, a exposição já recebeu quase 3.500 visitantes desde a abertura.
Com visitação gratuita, a mostra é estruturada em quatro módulos, que organizam a experiência do visitante por meio de cores, aromas e trilhas sonoras próprios. Esses elementos compõem ambientes que procuram traduzir diferentes camadas de um sertão moderno e mitológico, dividido em: Reino do Encoberto, Reino do Silêncio Ardente, Reino da Cruz Errante e Reino do Chão das Promessas. Cada núcleo apresenta suas próprias atmosferas, conduzindo o público por uma espécie de narrativa sensorial e emocional.
AZOL conta que a ideia do projeto começou a tomar forma ainda nas pesquisas para sua exposição anterior, “O Sertão Virou Mar”, de 2022, mas ganhou força após viagens feitas em 2024 por diferentes regiões do Nordeste. Nessas andanças, o artista se aprofundou na arquitetura sertaneja e passou a observar casas do interior representadas de forma fragmentada que, quando ampliadas, lembravam coroas. A partir daí, surgiu o impulso de inserir traços humanos nas obras.
“Ao ampliar isso, surgiu a figura do rei e da rainha com traços do fenótipo indígena e afrodescendente como ferramenta de fortalecimento dessa identidade, somada à ideia monárquica de reinos que simbolizam uma verdadeira mitologia”, relata.
O processo criativo também foi alimentado por uma imersão em expressões populares de fé. AZOL percorreu cerca de três mil quilômetros por cidades da Bahia, Pernambuco e Ceará, reunindo imagens e memórias ligadas a tradições religiosas. Esse conjunto de vivências deu origem aos quatro reinos que estruturam a exposição.
“O conceito dos quatro reinos nasceu de uma fábula sobre um andarilho que vagueia pelo sertão em busca de mistério. Ele passa pelo Reino da Cruz Errante, terra de penitentes e peregrinos; pelo Reino do Chão das Promessas, onde o barro é protagonista; pelo Reino do Encoberto, onde tudo é presença oculta; e, por fim, pelo Reino do Silêncio Ardente, ligado aos saberes ancestrais do sagrado feminino”, descreve o artista.
Responsável pela curadoria da exposição, Manoel Onofre destaca que a mostra apresenta o sertão como um território onde a memória e o sagrado se entrelaçam, criando uma experiência que extrapola o olhar.
“Ao transitar pelos Reinos do Imaginário de AZOL, inventados e reinventados, o espectador é convidado não apenas a observar, mas a participar de uma experiência sensível de reconhecimento e escuta. Em cada obra, reverbera o eco de um tempo que não passa, mas pulsa, onde o invisível é matéria, o sagrado é gesto e a memória, território vivo. Reinos do Imaginário se firma, assim, como um convite à travessia interior, um percurso simbólico por entre ruínas de fé, fragmentos de mitos e promessas de futuro, onde a arte se torna ferramenta de encantamento, reconexão e permanência”, afirma o curador.
Entre as obras que devem atrair a atenção do público, está uma instalação modular em madeira que remete a um castelo, com nichos que abrigam cabeças de reis. A peça dialoga com outros elementos expostos, como tronos, totens e um gazebo que representam a divisão entre os reinos. Outro destaque é uma escultura inspirada nas cúpulas do Castelo de Zé dos Montes, ponto turístico de Sítio Novo, no Rio Grande do Norte.
“É uma experiência imersiva, uma exposição que deve provocar no público o resgate de uma memória afetiva. É para o público observar não apenas as obras expostas, mas também, as sensações que delas surgem ao adentrar pelos reinos”, traduz o artista.
“Reinos do Imaginário” conta com apoio institucional do Governo do Rio Grande do Norte, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Fundação José Augusto, responsáveis pela administração do Palácio Potengi, sede da Pinacoteca do Estado.

