ARANHA: ENTRE O CORPO, O METAL E A TERRA
ARANHA
Jozinaldo da Silva Julião, conhecido como Aranha, é um artista cuja trajetória dissolve fronteiras entre ofício, sensibilidade estética e disciplina física. Nascido em São Tomé-RN, em 10/09/1975, e radicado entre Natal e Currais Novos, sua história se constrói no cotidiano do trabalho, no rigor do esporte e na invenção silenciosa da arte. Porteiro do IFRN desde os tempos da ETFRN, atleta desde 2009 e artesão autodidata, Aranha transforma matéria dura, metal, madeira, chapa, em narrativa visual carregada de identidade sertaneja e imaginação simbólica. Sua produção não nasce de academias ou escolas formais, mas do olhar atento, da persistência e da ética do fazer.
ORIGENS E CAMINHO DE VIDA
Filho de José Julião Sobrinho e Damiana Soares da Silva, pai de Samuel Davi e José Bernardo, Aranha carrega uma biografia marcada pela constância. O trabalho no IFRN, iniciado em 1995, atravessa transformações institucionais sem romper seu vínculo com a dignidade do serviço público. Em Currais Novos, onde atua até hoje, consolida-se como figura conhecida e respeitada.
Essa estabilidade não o imobiliza: ao contrário, sustenta o terreno onde florescem arte e esporte como formas de superação e expressão.
A DESCOBERTA DA LATONAGEM
A arte surge de maneira orgânica, quase silenciosa. Enquanto atuava como ASG no CEFET, Aranha observa o artesão Francisco Callado. Do gesto repetido, do brilho do metal trabalhado, nasce o aprendizado. A latonagem, técnica que exige força, precisão e paciência, ajusta-se à sua personalidade. Com o apoio do mestre, ele aprimora o domínio técnico e desenvolve uma linguagem própria, onde o relevo, a pressão e a textura substituem o desenho tradicional.
ANÁLISE DAS OBRAS E DO ESTILO

As fotografias revelam dois eixos claros de produção. Na obra em metal, a figura híbrida, quase mitológica, apresenta traços expressionistas: olhos vazados, volumes tensionados, linhas profundas. O uso do relevo cria dramaticidade e sombra, aproximando a peça de uma escultura pictórica. Já a cena rural, executada sobre madeira, dialoga com a pintura ingênua e o regionalismo nordestino. O boi, o carro de madeira, o cão e a paisagem sertaneja são tratados com cores terrosas e verdes oxidados, reforçando a memória do campo. Há simplicidade formal, mas forte carga narrativa. Aranha alterna o fantástico e o cotidiano, sem abandonar a identidade popular.
ARTE, CORPO E DISCIPLINA
No atletismo, descoberto no CEFET e amadurecido em Currais Novos, Aranha integra os Guerreiros do Sertão e a ALAT. O esporte não é paralelo à arte: é complementar. A resistência física, o treino contínuo e o respeito ao tempo do corpo dialogam diretamente com o tempo do fazer artesanal. Ambos exigem constância, silêncio e humildade diante do aprendizado contínuo.
SENTIDO SOCIAL E FILOSOFIA
As frases que o artista repete sintetizam sua visão de mundo: arte e esporte como caminhos de aprendizado infinito e como instrumentos de ajuda ao outro. Sua produção não busca o mercado especulativo, mas o compartilhamento simbólico. Aranha é, antes de tudo, um construtor de sentidos, alguém que transforma trabalho, fé e esforço em linguagem visual acessível, honesta e profundamente enraizada no sertão potiguar. Sob a curadoria do artista Naïf Francisco Nilson, Aranha participou da exposição Cores do Seridó, no Museu da Rampa em Natal no ano de 2024, com diversos artistas do Estado.

