Criado em 2015, o grupo Roda Viva completa dez anos levando cuidado e orientação sobre saúde mental e emocional para a população do bairro Felipe Camarão, na Zona Oeste da capital. Funcionando na Unidade de Saúde Felipe Camarão II, o projeto, vinculado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Natal, incentiva o bem-estar, o fortalecimento de vínculos e a prevenção do adoecimento psíquico.
Valdelice Araújo, agente comunitária de saúde (ACS) e coordenadora do grupo, explica que a iniciativa surgiu como um projeto de conclusão da capacitação “Caminhos do Cuidado”, desenvolvida pelo Ministério da Saúde. “Eu percebi pessoas com adoecimento mental ou outros transtornos dentro da minha microárea, e pensei em construir uma proposta de reunir essas pessoas com os mesmos problemas, inquietações e sofrimentos, colocando-as em um espaço para conversar. Foi daí que surgiu o grupo”, disse.
A agente comunitária reforça que os encontros reúnem os participantes para que possam falar sobre saúde mental e emocional e fortalecer os vínculos. “Buscamos momentos atrativos e culturais, para que eles vejam que tudo isso que estamos mediando é para que se fortaleçam na sua saúde mental, pois o Roda Viva não acontece apenas dentro desse espaço. O projeto também está no território, estimulando a ocupação de outros espaços fora do bairro”, afirmou.
No projeto, os participantes são acolhidos pela equipe multidisciplinar da unidade, que realiza exames e acompanhamentos dos usuários. Muitos fazem uso de psicotrópicos, outros não, e alguns reduziram a dosagem após o acolhimento encontrado no local. “Damos todo o suporte, mas a ideia é que eles sejam um grupo que se autofortaleça e se ajude mutuamente”, salientou Marinalda de Queiroz, assistente social integrante da equipe multidisciplinar.
Ana Lúcia Ferreira do Nascimento, de 65 anos, frequenta o grupo desde a sua criação e reforça a importância dele em sua trajetória. “Eu tinha vários problemas de saúde, então Valdelice me convidou e eu aceitei participar do grupo. Eu amo estar nesse projeto, é aqui onde a gente recebe cuidado e visitas dos médicos, é onde converso com as minhas amigas e compartilhamos conhecimentos e experiências. Então, para mim, a Roda é viva e é vida”, confidenciou.
Os encontros do grupo contam também com a oferta de chás preparados por Ana Batista da Silva, que há quatro anos participa da iniciativa. “Um dia do encontro, sem querer, eu disse: ‘Vou levar uma garrafa de chá’, e agora isso se tornou uma tradição. É um grupo que ajuda muito, e para mim trazer esse chá é uma terapia, um calmante”, contou a usuária, que levou no último encontro o chá de hortelã-miúdo, conhecido por seus efeitos calmantes e por auxiliar em casos de cólicas, gases, náuseas e estresse.
A experiência exitosa do grupo foi apresentada no Evento Nordeste de Equidade de Gênero, Raça, Etnia e Valorização das Trabalhadoras no SUS, realizado em outubro, no Maranhão. “Quando falamos sobre o grupo, a intenção é que a ideia se multiplique e que outras unidades se sintam capazes de construir esse momento com suas comunidades. É muito importante quando a gente se capacita e devolve esse conhecimento à população, que é um dos objetivos da SMS”, afirmou a coordenadora.
O Roda Viva é aberto a toda a população da região interessada em participar. Os encontros acontecem duas vezes ao mês, sempre às segundas-feiras, das 14h às 16h. Os interessados podem procurar a recepção da Unidade de Saúde Felipe Camarão II, localizada na Rua Santa Cristina, nº 882, no bairro Felipe Camarão, para mais informações.
Janeiro Branco
O encontro da última segunda-feira (19) contou com uma conversa especial que marcou o início das ações da campanha Janeiro Branco na unidade, com a temática “Paz. Equilíbrio. Saúde Mental”.
Valdelice Araújo explica que, como a equipe já trabalha a temática da saúde mental no grupo, decidiu iniciar as ações da campanha com os participantes do Roda Viva, para que eles também atuem como multiplicadores das informações em suas comunidades. “Nem todo mundo quer discutir a questão da saúde mental, então iniciamos essa discussão em janeiro e trabalhamos o tema ao longo de todo o ano”, explicou.
Durante o mês, a unidade também realiza ações na sala de espera do serviço, promovendo acolhimento sobre o tema, além de levar a discussão para fora dos muros da unidade por meio do projeto Calçadas da Vida, que atende pessoas em situação de rua no bairro. “Durante o Janeiro Branco, sensibilizamos também os profissionais do serviço, que vivenciam os impactos tanto das situações atendidas quanto das inflexões das suas próprias vidas”, concluiu Marinalda de Queiroz.

