O Partido dos Trabalhadores (PT) nunca engoliu as oligarquias familiares potiguares. Tolerou-as, usou-as e delas se serviu, a partir de um dado momento, quando a aritmética eleitoral exigiu. Mas engolir, jamais. Alves e Maia personificavam para o petismo aquilo que a velha esquerda nordestina aprendeu a identificar, desde os anos 1980, como a política herança de família, o poder como espólio e o Estado como cartório ampliado. A convivência foi pragmática, nunca afetiva e muito menos ideológica.
Desde que o PT começou a criar musculatura no Rio Grande do Norte, ainda na esteira da redemocratização, os sobrenomes Alves e Maia figuravam no seu discurso como símbolos do atraso e mesmo do reacionarismo. Aluízio Alves (e depois Garibaldi Filho) representava um modelo retrogradado, calcado no fisiologismo político, mestre na arte de sobreviver; José Agripino Maia, herdeiro político de Tarcísio Maia, era o liberal de gabinete, operador eficiente do poder sem jamais demonstrar apego a projetos sociais transformadores. Ambos encarnavam a política que precisava ser superada, não abraçada.
Nos anos 1990, quando o PT ainda era força minoritária no estado, a crítica era aberta e sem disfarces. O partido se apresentava como alternativa moral e programática a uma política dominada por clãs familiares. O discurso contra as oligarquias era retórico e, acima disso, identitário, servindo para marcar território, diferenciar-se e justificar a própria existência. A chegada ao poder, anos depois, não apagou essa memória, apenas a empurrou para o subterrâneo das conveniências.
A eleição de Fátima Bezerra em 2018 foi o ponto fora da curva. O PT chegou ao governo sem depender diretamente de Alves ou Maia, surfando na rejeição ao bolsonarismo e no desgaste das elites tradicionais. Foi uma vitória histórica e simbólica. Pela primeira vez, o partido governaria o estado sem pedir licença aos velhos donos do poder. Isso não significou, contudo, o desaparecimento das oligarquias, mas a reacomodação delas.
Quando a aliança com o MDB se tornou necessária, ela veio sem confiança. O PT nunca esqueceu que os Alves foram adversários sistemáticos em disputas nacionais, apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff e críticos frequentes dos governos petistas. A aproximação ocorreu não por afinidade, mas por escassez de opções. Como em tantos outros estados, o PT fez o cálculo: melhor um aliado desconfiável do que um inimigo organizado.
É nesse contexto que se deve entender o episódio envolvendo Walter Alves. Para o PT, Walter não é e nunca foi um parceiro estratégico. Foi apenas um vice funcional. Servia enquanto ajudava a manter a estabilidade institucional e o apoio parlamentar. Assumi-lo como herdeiro legítimo do governo seria mais do que o partido está disposto a conceder a um grupo que sempre considerou parte do problema, nunca da solução.
Há uma linha contínua que liga essa postura à história do partido. O PT sempre operou com a noção de que alianças com oligarquias são concessões temporárias, não pactos duradouros. Elas duram enquanto servem ao projeto maior. Quando deixam de servir, tornam-se descartáveis. Foi assim em diversos estados do Nordeste e não seria diferente no Rio Grande do Norte.
Walter Alves percebeu isso antes que o discurso virasse cobrança pública. Assumir um governo em fim de linha, sem respaldo real do partido dominante, seria aceitar o papel de administrador do desgaste. Seria carregar nas costas um estado quebrado, sem ter o comando político do projeto. Para o PT, seria conveniente, afinal o ônus ficaria com o herdeiro da oligarquia; o bônus, se houvesse, seria reivindicado pelo partido de Fátima Bezerra.
A recusa de Walter é, portanto, menos um ato de fraqueza e mais um reconhecimento da armadilha. Ele sabe que o PT nunca engoliu os Alves, apenas os mastigou quando necessário. E que, ao primeiro sinal de inconveniência, cuspiria o resto. O episódio apenas escancara uma verdade antiga da política brasileira – e potiguar: alianças não apagam desconfianças históricas.
O PT pode até dividir palanque com oligarquias, mas nunca divide a alma. E quem confunde tolerância com aceitação costuma terminar sozinho, segurando o prejuízo.
