Jean Paul Prates
A megaoperação realizada em 28 de agosto de 2025 — que desmantelou um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, envolvendo mais de mil postos e fintechs operando à margem da lei — representa mais do que uma ação repressiva. É o marco simbólico de uma reinauguração institucional e econômica do setor, que há décadas convivia com desequilíbrios competitivos, perda de arrecadação e profunda erosão de confiança.
Essa limpeza ética e estrutural é o ponto de partida necessário para pensar o que os postos devem se tornar. Eles precisam deixar de ser apenas pontos de venda de combustíveis fósseis para assumirem o papel de hubs urbanos integrados à nova realidade da mobilidade elétrica, da urbanização inteligente e da diversificação de serviços. Estações de recarga para veículos elétricos, áreas de conveniência e alimentação, suporte à mobilidade ativa e ao transporte coletivo, integração com ciclovias, corredores de ônibus e VLTs, e até microplataformas logísticas para entregas urbanas: tudo isso pode e deve estar no centro dessa nova função urbana dos postos.
Além disso, com a digitalização e a ascensão de meios de pagamento próprios, carteiras digitais e programas de fidelidade, muitas redes de postos já operam, na prática, como instituições financeiras de base urbana. Monetizam o consumo, capturam dados de deslocamento, oferecem cashback e crédito, e tornam-se espaços de transação integrados ao cotidiano do cidadão. Com a devida regulação e parcerias com fintechs legítimas, essa dimensão pode ser aproveitada para criar novos modelos de negócio e receita, com transparência e rastreabilidade.
Mas essa transformação não será viável se os postos permanecerem isolados. A reconversão do setor só ocorrerá plenamente se as cidades assumirem seu papel. Prefeituras e gestores urbanos precisam incluir os postos em seus planos de mobilidade, zoneamento e descarbonização. Incentivos à reconversão de terrenos, marcos regulatórios modernos, permissões para integração modal e infraestrutura elétrica adequada são elementos essenciais para fazer da transição energética uma evolução urbana concreta.
O Brasil tem as condições ideais para liderar esse novo modelo: uma rede capilar de distribuição, tradição em biocombustíveis e agora, com a operação Carbono Oculto, a oportunidade histórica de reconstruir o setor sobre novas bases — éticas, sustentáveis e inovadoras. O posto do futuro já não se define apenas pelo que vende, mas por tudo o que conecta: pessoas, energia, mobilidade, serviços e confiança. Cabe a nós garantir que essa nova etapa comece de forma estruturada, legítima e estratégica.
Jean Paul Prates é Chairman do CERNE, ex-Senador da República e ex-Presidente da Petrobras.