Apesar de sua matriz majoritariamente renovável, o Brasil assiste à perda de bilhões de reais com o curtailment – o corte compulsório da geração eólica e solar mesmo quando há condições para gerar e entregar energia. No Nordeste, onde se concentra a maior parte dos parques renováveis, esse fenômeno já representa mais de R$ 2 bilhões em perdas para investidores e operadores, e seus efeitos chegam agora à conta de luz do consumidor.
Por trás desse desperdício está o descompasso entre a velocidade da expansão das renováveis e a lentidão na ampliação da infraestrutura de transmissão. Soma-se a isso o crescimento desordenado do mercado livre de energia, que viabilizou projetos sem coordenação com o sistema elétrico, e a explosão da geração distribuída – fortemente subsidiada – que adicionou mais de 40 GW ao sistema sem contrapartidas equivalentes em redes e planejamento.
O MME, a ANEEL e o ONS, embora tenham acesso a todas essas informações – pois são eles que autorizam os projetos – não agiram para antecipar o impacto do volume simultâneo de novas conexões. O resultado: cortes arbitrários de geração renovável, acionamento de térmicas muito mais caras (de R$ 1.700 a R$ 2.600/MWh) no lugar de fontes limpas que geram a R$ 170/MWh, e um efeito inevitável: o aumento do custo da energia.
Além de perder competitividade, empregos e arrecadação, o Brasil corre o risco de retroceder na transição energética.
Resolver o problema passa por acelerar obras de transmissão, revisar os critérios de corte, valorizar a flexibilidade do sistema e integrar melhor o planejamento. O desperdício da energia limpa é, hoje, um dos maiores paradoxos do setor elétrico brasileiro – e quem já começou a pagar essa conta é o consumidor.
Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pelo IFP School (Paris). Foi presidente da Petrobrás (2023–2024) e Senador da República (2019–2023)