Para Nicolau Maquiavel, geralmente os homens “veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é”. Segundo o florentino, a política não é algo que exclui a moral. Por isso, os homens não deveriam buscar externamente a própria moralidade em imperativos, pois a política é autonormativa, razão pela qual são justificados os seus meios em prol de um bem maior, a saber, a estabilidade do Estado.
Amarrar a política a imperativos morais é um passo curto para o desmascaramento
Jair Bolsonaro, moralista de palanque, sempre se apresentou como arauto da ética pública, defensor incansável da família tradicional e da moralidade política. Mas, como toda boa tragédia, o enredo virou comédia quando os desvios do capitã-presidente vieram à tona. O último: a Polícia Federal revelou que ele movimentou cerca de R$ 44 milhões em suas contas pessoais entre março de 2023 e junho de 2025
A maior parte da dinheirama, aproximadamente R$ 30 milhões, entrou em sua conta entre março de 2023 e fevereiro de 2024, sendo R$ 19,3 milhões via Pix. Aparentemente, o moralista encontrou uma nova forma de pregar a ética: através de transferências instantâneas e discretas.
O Pix, ferramenta criada para facilitar a vida do cidadão comum, tornou-se o palco no qual o moralista encenava sua peça de moralidade.
Mas o espetáculo não parou por aí. Durante o período de março de 2023 a junho de 2025, Bolsonaro recebeu R$ 2,1 milhões em transferências para seu filho Eduardo e R$ 2 milhões para sua esposa Michelle, sendo este último um dia antes de ela depor à Polícia Federal. Tudo no melhor estilo da família tradicional.
Não há nada de ilegal no que Bolsonaro fez. A questão, porém, não é de legalidade ou ilegalidade, afinal a lei é apenas um dos esteios do moralista – e nem é o maior e mais importante deles.
O mais curioso é que, enquanto pregava a moralidade, Bolsonaro utilizava o Pix para movimentar milhões, transferindo pequenas quantias para evitar o rastreamento. A moralidade, aparentemente, é flexível quando se trata de proteger os próprios interesses.
E assim segue o moralista: pregando ética enquanto pratica o oposto. A tragédia, que poderia ser comovente, transforma-se em comédia quando se percebe que, no fundo, tudo não passa de um grande espetáculo. O moralista, agora, é o próprio personagem da peça que encenava.